D E C Á L O G O

D E C Á L O G O
para transformar seu paciente com epilepsia em um doente mental

 
Paulo César Trevisol Bittencourt
 
    1. Seja rude quando fizer o diagnóstico de epilepsia. Negue a visão contemporânea de que um controle completo das crises é possível em aproximadamente 80% dos casos. Coloque a perspectiva pessimista (herdada pela mesma via de um conhaque famoso) que vigorava até recentemente sobre esta condição. Enfatize a folclórica relação com insanidade mental e recomende ao seu paciente o uso de droga anti-epiléptica (DAE) pelo resto dos seus dias. Também seria uma boa analogia, usar como protótipo de epiléptico o retardado mental que esporadicamente tem crises epilépticas e sobrevive perambulando pelas ruas da sua cidade. Esqueça de mencionar os inúmeros vultos da história que a despeito das suas epilepsias (e curiosamente sem tratamento) foram indivíduos brilhantes.
       
       
    2. Ignore para-efeitos comuns a todas as DAEs disponíveis. Esqueça por exemplo, que todas sem exceção, podem promover “emburrecimento” do seu usuário; que todas podem desencadear alteração comportamental relevante ou sintomas psicóticos. Igualmente, despreze o fato de que algumas delas são capazes de transformar teu paciente num “monstrengo de feiúra” e finalmente ignore que o paciente poderá estar bem em relação a Epilepsia, mas um farrapo psíquico em consequência da DAE que você está prescrevendo. Caso ele/ela cometa suicídio, assuma a postura de coveiro aculturado e exclame: “Meu Deus, mas como foi possível se ele/ela não tinha mais ataques!”
       
       
    3. Aceite os reclamos da professora ou diretora, incomodadas com a má reputação que poderá advir para a escola, caso o “Joãozinho” ou a “Mariazinha” persistam tendo crises esporádicas durante as aulas. Como você bem sabe (e o povo em geral também), epilepsia é uma “doença infecto-contagiosa, havendo vários casos descritos de contaminação pela baba”; assim, envie uma comunicação para elas autorizando-as a negar matrícula e recomendando uma instituição para deficientes mentais como o ambiente ideal para a educação de crianças com epilepsia.
       
       
    4. Quando diante de um paciente com alteração comportamental, não questione se esta não está sendo induzida pela DAE utilizada. Prescreva logo neurolépticos (ou adicione um “diazepanzindo para ver como fica”) ao invés de suprimir a droga responsável. Contudo, naquele paciente adolescente com sério distúrbio de conduta desencadeado pelo uso de fenobarbital, aumentar a dose diária desta droga é a melhor alternativa para a sua definitiva psiquiatrização. Neste exemplo, a associação com drogas neurolépticas ou diazepínicas, embora perfeitamente dispensável, poderá ser ponderada, caso se desejar um ensandecimento mais rápido do paciente. Você tem disponível ainda “n” esquemas terapêuticos psiquiatrizantes; por exemplo, que tal um coquetel de DAEs (isto na possibilidade de você pertencer ao grupo do quanto mais melhor), ele é altamente efetivo para imbecilizar seu paciente; porém, associar valproato de sódio ao fenobarbital (um modismo atual em nossa sociedade) é espetacular para desencadear quadros neuro-psiquiátricos generosos no usuário e se obter a ruína psíquica do paciente em brevíssimo tempo de “tratamento”. Você poderia testar sua efetividade em algum familiar querido ou quem sabe no filho do seu vizinho; neste caso você poderá observar “in loco” quando ele desenvolver hábitos noturnos ou complexo de homem/mulher aranha. Garanto: será uma experiência inesquecível para todos os envolvidos.
       
       
    5. Encaminhe seu paciente com epilepsia para internação nos degradantes “zoo-ilógicos” humanos, convencionalmente chamados de Hospitais-Colônias Psiquiátricas. Se por acaso ele conseguir sair com vida do inferno hospicial que você o colocou, certamente exibirá sinais e sintomas de enfermidade psiquiátrica pelo resto da sua vida, graças ao convívio forçado com sofredores de uma gama variada de transtornos mentais e aos maus tratos. Agora, já com o status adquirido de doente psiquiátrico, recomende seu confinamento por “medida de segurança social” em um dos manicômios do seu estado. Isto não será uma tarefa difícil, pois juízes são municiados diuturnamente pelo rico folclore anedotário criado pela psiquiatria forense sobre epilepsia e supostos criminosos epilépticos; desta maneira você sempre terá um grande aliado para obter o enjaulamento eterno do seu paciente. Pois então, você está com a lei ao seu lado, não é legal?
       
       
    6. Ignore também que crise epiléptica é um sintoma… logo, nunca pesquise sua etiologia. Assim, quando seu paciente desenvolver manifestações mentais, elimine da sua memória as múltiplas causas que podem determinar simultaneamente epilepsia e deterioração mental e diga aos familiares: “Ah, isso é assim mesmo!”
       
       
    7. Em todo o paciente após uma primeira crise epiléptica exagere a magnitude do problema. Faça um “elétrico da cabeça” e diagnostique o que você não viu como “disritmia cerebral”. Prescreva doses generosas de barbitúrico para curar sua “disritmiazinha”. Caso os familiares reclamem de má performance intelectual/comportamental após o início da sua terapêutica, comente sobre os “malefícios da educação moderna” e recomende punição física como corretivo dos para-efeitos comportamentais provocados por seu bestial tratamento.
       
       
    8. Superestime o valor do eletroencefalograma (EEG) convencional tanto para confirmação quanto para exclusão do diagnóstico de epilepsia. Desconsidere o fato de que 20 a 40% dos pacientes com essa condição terão EEG rotineiro normal e que anormalidades eletrográficas, por si só, não significam de modo algum que o paciente tenha epilepsia, um diagnóstico que persiste sendo feito essencialmente em bases clínicas. Além disso, finja ignorar que em nosso meio EEG tem sua credibilidade comprometida por alguns profissionais delinqüentes que utilizam o método para fins estritamente pecuniários, o famigerado eletroencefalograna. Desta maneira não constitui raridade observar-se pacientes vitimados por esdrúxulas terapêuticas “justificadas” por um laudo eletroencefalográfico criminoso. Nunca é demais recordar que EEG é um dos exames complementares mais solicitados nos dias atuais (e infelizmente um dos mais mal interpretados também); cuja utilidade em epilepsia permanece inquestionável; entretanto, o seu mau uso é causa freqüente de disparates diagnósticos e terapêuticos. Assim, faça como a maioria: num epiléptico com EEG normal, diagnostique histeria e entregue a vítima para a psiquiatria ortodoxa completar a iatrogenia; contudo, no enxaquecoso com anormalidades eletrográficas irrelevantes, diagnostique “disritmia cerebral” e prescreva o melhor antídoto que você conhece para esse mal: FENOBARBITAL.
       
       
    9. Exagere o significado de dosagem sérica de DAE no tratamento de epilepsia, solicitando-a todas as vezes que o seu paciente tiver uma crise. Esqueça o óbvio de que quem irá lhe dizer se a DAE utilizada está em nível sérico apropriado é a pessoa usuária do medicamento e NUNCA o bioquímico. Ignore o fato bem documentado de que pelo menos um terço deles serão controlados com níveis séricos considerados sub-terapêuticos e que parcela significativa deles irão necessitar de níveis acima do considerado terapêutico para terem efetivo controle dos seus ataques.
       
       
    10. Por fim, esqueça que aproximadamente 10% dos sofredores de epilepsia persistirão tendo crises a despeito de qualquer terapêutica medicamentosa. Negue que 2 (dois) anos de seguimento é tempo mais do que suficiente para se constatar a refratariedade da epilepsia severa apresentada por um indivíduo em particular às modernas DAEs. Por outro lado, não leve em consideração que a primeira cirurgia bem sucedida para o tratamento de epilepsia, foi realizada há mais de um século atrás, em 1886, por sir Victor Horsley e que desde então este método tem evoluído consideravelmente; constituindo-se nos dias atuais em um efetivo recurso para o tratamento de muitos dos sofredores de epilepsias refratárias. Por isso, faça como antes de ontem, encaminhando o seu paciente para avaliação da possibilidade de benefício cirúrgico, quando após décadas de ataques incontroláveis ele já tiver desenvolvido seqüelas neuro-psicológicas irreversíveis. Não se desespere: Pilatos nos legou exemplo de como bem proceder socialmente nestas situações.

      Endereço para correspondência:
      Dr.Paulo César Trevisol Bittencourt
      Neurologia/Departamento de Clínica Médica/UFSC
      88040-970 – Florianópolis/Santa Catarina/Brasil
      pcb@neurologia.ufsc.br
      www.neurologia.ufsc.br