MEDICINA ALTERNATIVA EM PACIENTES COM EPILEPSIA EM SANTA CATARINA

MEDICINA ALTERNATIVA EM PACIENTES COM EPILEPSIA EM SANTA CATARINA

Paulo César Trevisol-Bittencourt*
Victor Reis da Silva**
Luiz Roberto Hilbert Ferreira***
André Ribeiro Troiano***
* Professor de Neurologia – UFSC
** Residente de Neurocirurgia, Universidade de Toronto, Canadá
*** Estudantes da Faculdade de Medicina da UFSC
Endereço para correspondência:
Dr Paulo César Trevisol-Bittencourt
Disciplina de Neurologia / Hospital Universitário / UFSC
88040-970 Florianópolis / SC – Brasil
Endereço eletrônico: pcb@neurologia.ufsc.br

INTRODUÇÃO

Todas as doenças crônicas levam a uma busca por tratamento alternativo. Tal situação pode ser confirmada em qualquer sociedade, independentemente do seu estágio de desenvolvimento. Como algumas formas de epilepsia têm tendência a evoluir de forma crônica, estas podem ser consideradas dentro deste contexto.

Por outro lado, devemos reconhecer que a despeito de todo progresso científico observado nas últimas décadas, as epilepsias e os fenômenos relacionados a elas, para a maioria da população, ainda estão envoltos em uma bruma misteriosa, principalmente nos países em desenvolvimento 3,7,9,14,16 .

Percebe-se sem muito esforço, em todas as sociedades deste planeta, a persistência anacrônica de um rico e bestial folclore sobre esta condição ímpar, influenciado principalmente por cultura religiosa, contribuindo para que as crises de natureza epiléptica (ou aquelas que a mimetizem) permaneçam sofrendo interpretações errôneas nos mais diferentes países. Enfatizamos que tais distorções culturais, não são uma exclusividade das nações sócio-economicamente subdesenvolvidas; pois, estes equívocos são perceptíveis também nas nações ricas. Além disso, surpreendentemente muitos médicos convencionais, não importando sua nacionalidade, costumam exibir igualmente um nível precário de informações sobre epilepsia. De fato, para confirmar isso, bastaria apenas visitar uma clínica de epileptologia moderna. Nesta, não importando o país onde está localizada, teríamos entre seus pacientes um número expressivo de indivíduos, mutilados por esquemas farmacológicos bizarros usados no passado e por cirurgias desastrosas executadas no presente 12 .

Entretanto, contribuindo para a desmistificação do pensamento médico e dos leigos em geral, estudos epidemiológicos recentes têm demonstrado uma face bem distinta daquela herdada dos nossos antigos professores: uma doença grave e vitalícia. Há, atualmente, concordância universal de que, exceto nas formas malignas de epilepsia (uma minoria estimada em aproximadamente10% do total), uma alta taxa de remissão das crises será observada na maioria dos pacientes. Aliás, é estatísticamente notável, que aproximadamente 80% deles tendem a ficar livres dos seus ataques com o passar dos anos10,11,17 . É bastante provável que esta observação epidemiológica, seja a principal explicação para justificar a fama obtida por muitos profissionais curadores de epilepsia, sejam eles convencionais ou alternativos. É oportuno recordar um antigo e famoso provérbio hindu: “a medicina é a arte de entreter a doença enquanto a mãe natureza faz o seu papel”. Em relação as epilepsias e seus sofredores, é bastante provável que a sabedoria popular venha aplicando este conceito intuitivamente ao longo dos séculos.

Por outro lado, ponderamos que estudar formas alternativas de tratamento em uma determinada sociedade, na pior das hipóteses, contribuiria para aperfeiçoar nosso conhecimento da população alvo da nossa atenção. Além do mais, permitir-nos-ia identificar métodos esdrúxulos que possam estar contribuindo para a deterioração destes pacientes. Por exemplo: é abominável que, às portas do terceiro milênio, crises epiléticas sejam ainda interpretadas como consequência de possessão demoníaca por terapeutas alternativos, praticantes de credos distintos em diversas sociedades ao redor do mundo. Frente a esta aberração milenar, overdose de informação apropriada, parece ser o único remédio capaz de minimizar os efeitos da ignorância, geradora do preconceito e do estigma social.

Entretanto, considerar-nos auto-suficientes e detentores do monopólio de conhecimento nesta área é equivocado. Nós, médicos convencionais e supostamente científicos, devemos nos despir de qualquer pretensão de superioridade intelectual e aprender um pouco com os epileptologistas alternativos. Apesar desta sugestão parecer paradoxal, uma breve revisão da história da medicina é suficiente para reconhecer diversas práticas alternativas, outrora rotuladas como excêntricas, que foram incorporadas pela nossa medicina ortodoxa, devido a seus indiscutíveis resultados positivos. O oposto também é verdadeiro, com muitas práticas convencionais sendo aposentadas após algum tempo… e muitas vítimas. Particularmente, a história da epilepsia nos fornece um grande número de procedimentos, inicialmente recomendados por médicos convencionais renomados, que atualmente seriam considerados um insulto à inteligência humana 1,4,5,6. E uma análise criteriosa das abordagens correntes, nos permite antever um destino similar, em curto período de tempo, para algumas das terapêuticas ditas científicas. Reforçando este aspecto, é mister reconhecer nossa vivência com drogas inicialmente apresentadas como revolucionárias panacéias antiepilépticas, que após alguns anos de uso, revelaram-se verdadeiras fraudes.

Num outro prisma, devemos também ter em conta que a existência atual é um tanto mórbida. Da mesma forma como alguns psiquiatras evoluem com o tempo para o status de psiquiátricos, um número expressivo de neurologistas, com o desenrolar dos anos, acabam transformando-se em reais neuroticologistas, passando a exteriorizar sintomas neuróticos em grau variado. Na verdade, muitos de nós, estão ficando progressivamente impacientes e consequentemente estabelecendo frágeis relações médico-paciente. Praticantes e curandeiros alternativos, tendo mais tempo e paciência, e algumas vezes mais educação, tendem a desenvolver uma relação mais gratificante com estes peculiares pacientes e seus familiares.

Finalizando, é necessário ter em mente a intrigante sugestão trazida pela epidemiologia contemporânea, de que a remissão dos sintomas epiléticos poderá ser espontânea 10,15,17. É desnecessário, por seu caráter óbvio, discorrer sobre a importância deste aspecto quando analisamos o sucesso de qualquer proposta terapêutica.

MÉTODOS

A Clínica Multidisciplinar de Epilepsia do SUS, em Florianópolis, SC, foi fundada em 1990. É dedicada à assistência de aproximadamente 2000 pacientes externos com diversas síndromes epilépticas procedentes de todo estado de Santa Catarina. Esta é a única clínica de epileptologia da rede pública do estado. A maioria destes pacientes tem sua origem na classe trabalhadora urbana, com nível educacional secundário. A clínica possui facilidades de acesso a vários recursos neurofisiológicos e neuroimageológicos. O acesso às drogas antiepilépticas prescritas é gratuito e suprido de forma regular. O princípio terapêutico adotado é a monoterapia com droga antiepilética maior.

Da população atendida, foram escolhidos aleatoriamente 100 pacientes adultos com epilepsias parciais resistentes à medicação apropriada. Através de abordagem individual, todos estes pacientes responderam a um amplo questionário confeccionado com o propósito de detectar a procura por tratamento alternativo no passado. Tentou-se identificar quem recomendou este tipo de tratamento e qual tipo de terapia foi empregado. Medicina alternativa (MA) para epilepsia foi definido com qualquer forma de tratamento em desacordo com a moderna abordagem científica para esta condição. A despeito disto, terapias medicamentosas bizarras prescritas no passado por médicos convencionais, facilmente identificadas, não foram consideradas como MA. Entretanto, homeopatia e acupuntura foram também incluídos como parte do arsenal alternativo.

RESULTADOS

Características da Amostra

 

 

Usuários de MA

Não-usuários de MA

N do total

% do total

N do total

% do total

Masculino

27

44

25

64

Feminino

34

56

14

36

Idade média

29.3 (de 18 a 57)

27.8 (de 19 a 54)

Analfabeto

04

06

01

03

Educação elementar

09

15

06

15

Segundo Grau

45

74

25

64

Nível Universitário

03

05

07

18

Baixa renda

06

10

02

05

Renda moderada

51

84

32

82

Alta renda

04

06

05

13

TOTAL

61

100

39

100

61 pacientes estavam no grupo que procurou MA

    • 12 pacientes suprimiram o tratamento com DAE prévio 

    • 35 pacientes pagaram pelo tratamento alternativo 

    • 26 pacientes tiveram MA como o primeiro tratamento para suas crises. 

Opinião sobre a experiência alternativa

Ruim 03
Regular 09
Boa 49
TOTAL 61

As prescrições mais excêntricas dos curandeiros

Óleo de gambá

Testículo de porco frito

Chá com excrementos de galinha preta

Praticantes de MA e seus métodos terapêuticos

MÉDIUM ESPÍRITA – 61 pacientes

Cirurgia espiritual, passe, remédios bentos

PADRE CATÓLICO – 49 pacientes

Bênção, oração, infusões de ervas, remédios caseiros, exorcismo (02 pacientes)

CURANDEIRO – 47 pacientes

Infusões de ervas, dieta especial para epilepsia, bênção, oração

PASTOR PENTECOSTAL – 44 pacientes

Exorcismo (15 pacientes), remédios bentos, bênção, oração

MÉDIUM DE CANDOMBLÉ – 09 pacientes

Prática de vudu

MÉDICOS CONVENCIONAIS – 08 pacientes

Homeopatia (07), acupuntura (01)

 

 

DISTRIBUIÇÃO DE PACIENTES SEGUNDO A ASCENDÊNCIA / ETNIA E PROCURA POR MA

 

Sim

Não

Miscigenados

43

31

12

Portugueses

24

13

11

Alemães

16

07

09

Italianos

13

08

05

Afro-brasileiros

03

01

02

Espanhóis

01

01

00

TOTAL

100

61

39

 

DISTRIBUIÇÃO DE PACIENTES SEGUNDO A RELIGIÃO E PROCURA POR MA

 

Sim

Não

Católicos

69

41

28

Pentecostais

07

06

01

Luteranos

04

00

04

Espíritas

03

03

00

Agnósticos

17

11

06

TOTAL

100

61

39

DISCUSSÃO

Epilepsia é um distúrbio neurológico extremamente estigmatizante em nossa sociedade 8,12,13 e sua prevalência como condição ativa em Santa Catarina é estimada em 1.2/100 14 . Epilepsia parcial sintomática é o tipo mais comum e trauma, cisticercose e convulsão febril são suas principais etiologias. Como esta forma de epilepsia tende a ser resistente a tratamento farmacológico apropriado, muitos destes pacientes irão desenvolver epilepsia como uma condição crônica. Por outro lado, é ainda muito prevalente em nosso meio a interpretação da fenomenologia epilética como uma expressão de distúrbio espiritual. Tal concepção, muito provavelmente, tem origem nos ensinamentos religiosos. Como a Bíblia tem passagens que responsabilizam o demônio como etiologia de crises epiléticas, e considerando que quase 100% de nossa população recebe conceitos básicos cristãos durante a infância, é natural observarmos que uma porcentagem expressiva de nossos pacientes tenham procurado ajuda em práticas alternativas no passado e que a maioria destas tenham sido recomendadas por líderes religiosos.

Apesar do desenho do nosso estudo não nos permitir concluir sobre a eficiência de tais tratamentos, foi algo marcante observar que a grande maioria dos pacientes, mencionaram uma sensação de bem estar durante a realização da terapia proposta, a despeito deles persistirem sofrendo crises. De modo análogo, todos nós médicos temos pacientes que comentam estar se sentido bem sob nossos cuidados, quer suas enfermidades tenham cura ou não. É muito provável que isto reflita apenas uma boa relação estabelecida entre o paciente e o terapeuta, resultando em conforto psicológico e melhor tolerância aos sintomas das epilepsias. Bisonhamente, muitos médicos científicos desdenham da importância de uma aliança eficaz com seus pacientes, desprezando a importância de uma boa relação médico-paciente. Dominados pelo grande progresso tecnológico, os médicos modernos esquecem peculariedades essenciais da sua profissão. Insistem em ignorar a necessidade de um ritual elementar para que possam auxiliar um semelhante em dificuldade; exemplificando, não levam em conta o preceito básico de que o melhor exame complementar permanece sendo o exame clínico e não o complementar tecnológico. Em consequência, pouco escutam e geralmente nem tocam em seus pacientes e por isso… não funcionam. Já os terapeutas alternativos, usualmente não solicitam exames complementares, geralmente dispendiosos e frequentemente inúteis; são habitualmente mais educados e focam sua atenção nas queixas do paciente. Assim não seria de estranharmos a crescente aceitação social que recebem.

Entretanto, em pelo menos um de nossos pacientes, foi possível identificar um sério efeito colateral de um tratamento alternativo. Este, surrealmente foi induzido por um profissional com treinamento prévio em medicina ortodoxa. A paciente entrou em status epilepticus convulsivo após ter suprimido o tratamento com DAE, por recomendação do seu médico homeopata. Embora este tenha sido um caso isolado, tal fato sugere que tratamentos alternativos não são isentos de riscos.

Quanto à classificação racial/cultural e econômica dos pacientes, não observamos qualquer diferença substancial entre os grupos. Todos procuraram por tratamentos alternativos similares, independentemente da sua qualificação sócio-econômico-cultural. Interpretamos este fato como uma expressão da rápida integração social e cultural que está se processando entre grupos de indivíduos oriundos de distintas tribos européias, tendo os mesmos valores educacionais. Contudo, nós pensávamos previamente que a religião professada poderia ser elemento determinante na escolha do tipo de terapêutica alternativa. Esta hipótese não foi confirmada. A busca por MA não seguiu qualquer critério religioso. A amostra era majoritáriamente composta por pacientes membros da igreja católica romana. Surpreendentemente, muitos indivíduos procuraram terapeutas ligados a outras religiões ou seitas. Mesmo procedimento tiveram aqueles indivíduos não conectados inicialmente a religião alguma. Aliás, neste aspecto, há um fato a ser mencionado: os únicos quatro pacientes da amostra que pertenciam à igreja luterana, jamais haviam buscado qualquer tratamento alternativo. Embora esta observação não tenha importância estatística conclusiva, seria interessante focalizar este aspecto em pesquisas futuras.

Porém, foi curioso observar que todos os 61 pacientes tiveram experiências prévias com tratamentos em centros espíritas. Diferentemente de outras regiões do Brasil, onde há influência marcante de ritos africanos e gentis, os centros espíritas de nosso estado filiam-se basicamente às idéias de seu mentor francês, Alan Kardec. Centros desta natureza apresentam-se à sociedade como uma forma de panacéia: tornando claras, justificando e tratando todas as doenças, disseminando entre seus praticantes a idéia conformista de que os problemas de saúde atuais são consequência de processos de vidas passadas. Resumindo, a doença atual é produto da vida de ontem, e no amanhã virá a consequência do que se fez ou não hoje. Tais centros tem uma poderosa ferramenta terapêutica que denominam cirurgia espiritual. Este tipo de procedimento, ocorre numa sequência análoga às cirurgias reais, onde o médium é uma espécie de cirurgião-chefe. Este, depois de minutos de concentração, na qual há uma espécie de possessão benigna (incorporação) pelo espírito de um médico convencional, já falecido, geralmente inicia seu trabalho pronunciando palavras incompreensíveis. Estas palavras pertencem ao suposto idioma natal do médico falecido, uma vez que nem todos os espíritos são brasileiros. Com roupas brancas e empunhando um bisturi, o médium finge executar uma craniotomia e gesticula como se estivesse de fato realizando a exérese de algo de dentro do cabeça do paciente. Numa atmosfera de coletivo frenesi, após alguns minutos termina a cirurgia e os cuidados de enfermagem passam à responsabilidade dos atendentes. São recomendados alguns dias de descanso, devido à seriedade da intervenção. Devemos enfatizar que todos os nossos pacientes submeteram-se a tal tipo de terapêutica. Além de um breve alívio psicológico, relatado uniformemente por todos aqueles submetidos a cirurgia, nenhum outro benefício foi citado. Entretanto, num simulacro de tragi-comédia dantesca, um paciente desenvolveu uma forma incomum da síndrome do Barão de Münchausen, passando até o momento por pelo menos dez cirurgias espirituais.

Ainda no aspecto religioso, foi deprimente observar que exorcismo foi um método alternativo indicado para epilepsia em muitos indivíduos de nossa amostra. Tradicionalmente, em tempos há muito idos, a igreja católica detinha o monopólio desta aberração terapêutica. Infelizmente, quando parecia que esta abordagem estava sendo esquecida, algumas seitas pentecostais da moda, com mal-disfarçados interesses financeiros, investiram fortemente em sua manutenção.

A interpretação equivocada da fenomenologia epiléptica como sintoma de possessão demoníaca é extremamente frequente para não ser considerada. Nós desconfiamos fortemente que a ignorância seja o fermento das religiões em geral; afinal, as boas ovelhas são obedientes e …estúpidas. Entretanto, nós aceitamos que princípios religiosos em doses adequadas, talvez homeopáticas, possam ser um bom remédio; porém, doses maiores podem causar envenenamento grave, impedindo que os indivíduos identifiquem a origem e a solução de seus problemas existenciais.

A difusão do conhecimento adquirido pela epileptologia moderna, parece ser a única opção eficaz para minimizar a grande influência de tais métodos alternativos em nossa sociedade, em especial aquelas inspiradas em práticas religiosas anacrônicas e algumas pseudo-modernas também. Entretanto, para obter êxito em nosso propósito, é imperativa a criação de clínicas multidisciplinares nas maiores cidades de nosso estado. Esta afirmação pode ser justificada com os seguintes dados: no presente momento há apenas uma clínica ligada à rede pública contra 198 centros espíritas kardecistas em todo estado. Templos pentecostais com apelo philantrópico evidente, estão crescendo avalassadoramente nos últimos anos e estão em número ainda maior. Logo, podemos concluir que é muito mais fácil “marcar uma consulta” nestas clínicas alternativas. A relação atual reflete uma competição desequilibrada, permitindo-nos antever que por ainda muitas décadas os sintomas epiléticos serão confundidos como manifestação de possessão demoníaca ou sinal de poder mediúnico, como os kardecistas definem a capacidade de incorporar espíritos do além e associam a fenomenologia epilética. Tal tarefa tornar-se-ia mais fácil se os médicos convencionais tivessem uma formação epileptológica adequada, mas estes frequentemente demonstram um nível de conhecimento hilariante sobre esta condição comum 2,12 e, não raramente, são eles mesmos favoráveis e/ou usuários de tais práticas não-convencionais 12 . Além do mais, devemo-nos lembrar que pelo menos 7 pacientes tentaram tratamento homeopático e pagaram por este cuidado. Podemos inferir que este tipo de prática é muito provavelmente mais frequente entre os pacientes de níveis sócio-econômicos mais elevados.

Finalmente, gostaríamos de mencionar a sugestão intrigante levantada pela epileptologia moderna de que a alta taxa de remissão dos sintomas em pacientes com epilepsia pode ser espontânea 10,15,17 . Desta forma, muito provavelmente a longo prazo, curandeiros alternativos poderão ter taxas de sucesso similares às nossas, porém sem submeter seus pacientes à inconveniência dos frequentes efeitos indesejáveis das DAE atuais. Entretanto, podem haver consequências psicológicas desastrosas quando sintomas epilépticos são vistos como sintoma de paranormalidade, “encosto” ou distúrbio espiritual, e estas não podem ser negligenciadas. A diminuição dos efeitos colaterais advindos de qualquer tratamento deve ser o objetivo de todo terapeuta. Com o intuito de atingir esta meta, nós, doutores convencionais, deveríamos explicar científicamente (duas veias no célebro que se encostam???) aos pacientes e seus familiares a fenomenologia epiléptica, características das DAEs utilizadas e, principalmente, melhorar a relação médico-paciente. Este aspecto tem sido progressivamente negligenciado nas escolas médicas, e piorado ainda mais pelo status neuroticologicus que estamos vivenciando. Ela precisa ser recuperada e isso talvez nos obrigue a aprender um pouco com os terapeutas alternativos.

Por último, enfatizamos que este é um estudo pioneiro em nossa sociedade e que foi realizado em um estado do sul do Brasil, no qual a população é formada basicamente por descendentes de imigrantes europeus que desembarcaram aqui há aproximadamente dois séculos. Por este motivo, os dados obtidos nesta investigação não devem ser extrapolados à toda população de nosso país. É muito provável que estudos com metodologia similar, executados no futuro em outras regiões do Brasil, mostrem resultados diferentes dos apresentados aqui.

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