Anticoncepção na casa de loucos

Ensaios e Crônicas – Anticoncepção na casa de loucos


Era uma fudida noite de inverno quando esta estória começou; o ruído depressivo da ventania, era uma espécie de seresta da geada braba. Aliás, como passamos frio aqui no sul maravilha. Está certo que não são 4 meses, como os paunucodonozor do hemisfério norte tem; mas, que dói, dói. Por isso, partilho a idéia de um amigo: neve e geada, ficariam bem mais bonitas e charmosas em …cartão postal (ou na PQP).

Dois meses antes, tinha ganho uma bolsa para dar plantão lá na famigerada casa de loucos. Para quem estava durango kid, cem paus por mês seria uma grana razoável. Pelo menos os pileques de sábado estavam garantido. Acabei por descobrir que o zôo humano era mais diversificado que imaginava. Após um dia inteiro remendando desgraçados farrapos humanos, com recomendações para o tratamento de suas mazelas clínicas; enfim, fui dormir minha primeira noite em um hospício. Recordo que tudo era francamente psicótico naquele quarto; cama, colchão, banheiro e um ensebado caderno de anotações das ocorrências do dia. Insone, dei uma olhada; perdi o sono e ganhei um pesadelo. Estava ali escrito, bem em frente a mim:… hoje foi um dia muito agitado aqui, trabalhei demais. No final de um dia estafante, andando pela casa flagrei o Pedrinho fudendo com a Joana. Não tive dúvidas, dei-lhes uma punição exemplar: amplictil+fenergan na veia de ambos, dormiram feito anjinhos, um ao lado do outro. A besta psiquiátrica autora da agressão, era o atual diretor geral e um dos mais renomados psiquiatras da instituição.

Eu já desconfiava que a casa era monstruosa, agora tinha convicção. Lá pelas duas da madruga, quando Morfeu finalmente se anunciava próximo, uma voz longínqua e gemente substituiu minha soneca por novo pesadelo: por favor um copo d’água. Viro na cama e ofereço meu ouvido deficitário para o reclamante, pois deveria ser alucinação. Dez minutos após, a mesma voz debilitada repetia insistentemente … por favor me de um pouco d’água. Pulei fora da cama, e juro que não foi por por altruísmo não, mas porque estava afim de dar um basta naquela voz sussurrante pedindo água. Saio do quarto, ando vinte metros e finalmente deparei-me com o agente daquilo: em uma vasta enfermaria, lá estava o doido gemente, imobilizado na cama imunda. Acendo a luz e observo o imbecil atendente, roncando feito jegue sergipano num canto da enfermaria de clínica médica. Acordo o primitivo Muar sapiens e lhe digo asperamente: desamarre e ofereça água a este senhor. Bebeu 7 copos seguidos. Ao final, quando o relapso auxiliar de enfermagem iria lhe imobilizá-lo novamente no leito, recordei que era tenente R2 da infantaria do glorioso e ordenei-lhe … deixe este homem dormir a vontade. Agressiva e muito mal educadamente, o gendarme da loucura ameaçou…se ele fugir a responsabilidade é tua.

Quinze anos depois, andando na rua Presidente Coutinho, uma rua a la antiga de Florianópolis, encontro casualmente um ilustre conterrâneo: o Dr. Eliezer Silva, um raro médico usuário do cérebro. Tinha boas relações com o colega, desde o tempo que tentamos introduzir a discussão de Neurologia na província. Ambos, eramos da mesma região do nosso estado, o extremo sul, e o papo, um fuleiro up to date in gossips, era uma agradável profilaxia da angina escrotal que afeta os urbanóides modernos. Naquele fim de tarde o sol já tinha partido, mas a noite indolente ainda não tinha despertado, de forma que uma débil luminosidade permitia identificar os poucos transeuntes. Eis que repentinamente percebo um homem estático do outro lado da rua, nos olhando fixamente. Coloco meu olho esquerdo, o bom, em cima da figura e de imediato a reconheço; quase quinze anos se passaram e ele parecia não ter mudado quase nada. Com certeza ganhou alguns poucos quilos; …hum, talvez loucura em liberdade promova ganho de peso. Finalmente ele se decide, cruza a rua vindo na nossa direção, aproxima-se o suficiente para se certificar de que eu era a pessoa imaginada e me lasca a pergunta inesperada: você se lembra ainda de mim? Claro que sim! Então muito educadamente disse: desculpe-me pelo atraso, muito obrigado por aquela noite.

Desde nosso reencontro temos nos vistos episodicamente. Há cerca de 10 anos, explorando seus bons conhecimentos de Oftalmologia, convidei-o para ir comigo até o Egito examinar uma paciente com suspeita de doença de Wilson. Foi uma longa jornada, passamos pela pirâmide de Santa Margarida e finalmente chegamos na terra dos Schwartz. Apesar dos nomes, ninguém era negro ou muçulmano; num casebre do século passado, gastamos uma hora examinando-a judiciosamente. Com seu oftalmoscópio sofisticado, ele descartou a presença de um anel de cobre circundando a córnea; um sinal diagnóstico da enfermidade. Tranquilizamos os familiares e no retorno, as gargalhadas, estabelecemos de comum acordo o real problema da adolescente: carência de instrumento perfuro-contundente em local apropriado.


Paul Melek
02/97