BOTOX

BOTOX

A sociedade ocidental é realmente insaciável na busca da felicidade. Desde há séculos, consome álcool em doses cavalares para acalmar seus demônios; descobriu as drogas benzodiazepínicas na década de 60 e desde então se empanturra delas; e a partir de 1987 (ano da pioneira – fluoxetina) encontrou equivocadamente nas “inas” a solução de tédio mesclado com ansiedade recorrente. Difícil encontrar uma mulher atualmente que já não as tenha experimentado. Aliás, dificílimo encontrar uma de meia idade que não esteja em uso de alguma delas. A moda bisonha

pegou até entre veterinários; pois cachorros e gatos urbanos, sequestrados em apertamentos, naturalmente adoecem e surrealmente também estão sendo “tratados” com estas panacéias.
Como a existência continua sofrida, afinal sempre há algum defeito grave para ser corrigido, explodiram as clínicas de cirurgia plástica, e a bem da verdade, um fenômeno não restrito a tropicalândia. Assim, chegamos na reparação estética como a solução ideal para uma problemática de relacionamento milenar. É cirurgia para tudo e para todos também; não havendo limites de nenhuma espécie. Na expectativa de conquistar clientes afetados por vaidade doentia, até o baixo clero tem sido contemplado com financiamento. E o número de vítimas incrementa na mesma proporção; ora, se procedimentos de risco são vulgarizados, tragédias acabam banalizadas no cotidiano.
Para piorar a situação eis que chega a toxina botulínica como medicamento espetacular. Botox é o nome comercial mais afamado da coisa. Para os mais novos, segue uma informação adicional. Toxina botulínica é aquela mesma velha conhecida das nossas avós; elas a temiam quando faziam suas conservas artesanais e por isso mesmo tinham cuidados especiais no seu preparo. Elas sabiam de uma doença antiguíssima e freqüentemente fatal chamada botulismo – paralisia do corpo devido intoxicação por toxina botulínica veiculada em conservas mal preparadas. Pois bem (deveria escrever pois mal), pesquisadores na década de oitenta, descobriram nela uma boa alternativa para tratamento sintomático de diversas condições neurológicas que cursam com rigidez muscular ou distonia. E realmente é mister lhes dizer que ela poderá ser de grande utilidade em algumas destas situações. Todavia, extrapolou-se abusivamente sua indicação e atualmente, pasmem, ela concorre com a cirurgia plástica no mórbido afã de perpetuar beleza estética. E definitivamente virou moda social. Assim como temos alopatas, homeopatas, agora temos também os botoxisopatas que usam “à bangu” seu poderoso “medicamento” anti-velhice.
O frenesi é tal que efeitos destes modismos são evidentes em qualquer roda social composta por indivíduos pertencentes às classes alta e média, e em curto tempo, serão igualmente perceptíveis entre freqüentadores de bailões da periferia. Dias atrás uma amiga espirituosa contou-me detalhes de um baile aristocrático em que participou. Tive acessos de risos com seu relato. Jamais irei declinar seu nome, tão-pouco o local onde isto aconteceu; mas é bastante provável que o mesmo possa ser visto em qualquer outra cidade brasileira. Inspirado nela segue este relato….Paulo, o tamanho da barriga é uma das causas físicas, em todos os sentidos, de separação dos casais de meia idade; ah, e as rugas e o tamanho dos seios também. A lipoaspiração resolveu o primeiro deles; botox liquidou as rugas; e baldes de silicone fizeram as mulheres voltarem a exibir as mamas da mama. O problema é que os desencontros permanecem; e o que é pior, como manifestar tesão por alguém incapaz de sorrir. Seria mil vezes preferível ver o rosto da amada, mesmo enrugado, demonstrar alguma emoção, do que contemplar uma face botoxicada, estilo chinesa, onde além de ser impossível vislumbrar sua idade, desgraçadamente ignora-se seu sentimento.
Como Homem, constato aborrecido ver homens aderirem à moda da vaidade mórbida (ou da viadagem como prefere definir um outro amigo); eles estão igualmente se embotoxicando, se lipoaspirando e se siliconizando também. Humanos deveriam tentar manter a serenidade, a qualquer custo; até para justificar a auto adjetivação sapiens. Talvez, a meditação seja um eficaz medicamento contra este flagelo transformista. Talvez, qualificados psicólogos possam ser úteis. Mas, um maior contato com a natureza, cujos efeitos positivos são subestimados na sociedade moderna, dispensaria qualquer comentário adicional. Entretanto, egocídio é essencial na resistência a modismos bizarros; e liberdade, sem adjetivação, seria a solução, e para todos os animais, independente da sua qualificação zoológica.

Florianópolis, 10 de Setembro de 2004.
Dr.Paulo César Trevisol Bittencourt
Professor de Neurologia/UFSC
pcb@neurologia.ufsc.br
www.neurologia.ufsc.br