Casamento do Toinho

Ensaios e Crônicas – Casamento do Toinho

 


Ilha do Ouro, Sergipe, beira do rio São Francisco, febrereiro de 2001. Pessoal, que baita festa aquela; nem uma visita do camarada Alzheimer conseguirá apagar da minha memória os bons momentos vividos por aquelas bandas. Quando paramos em Itabaiana para informações, a primeira surpresa partiu do simpático frentista: voces querem mesmo ir para Ilha do Ouro ou estão afim de comerem as galegas de Porto da Folha? Galegas? Aqui na caatinga? Um monte delas respondeu maliciosamente. Sinceramente esperava encontrar uma porção de mulheres sofredoras de albinismo; imagine só, era pura verdade. E não eram louras fajutas estilo Carla Perez, eram do tipo Blumenau mesmo. Apesar de mal vestidas, tão bonitas e simpáticas que melhor seria chamar o lugar de Porto das Galegas. Finalmente descobri porque o capitão Virgulino apreciava tanto este lugar. Infelizmente seguimos para o destino e mais vinte kilometros em uma estradinha danada de ruim, a trans-cangaceira, chegamos no paraíso escolhido por Toinho para celebrar seu último e definitivo casamento (sic). Ilha do Ouro choca o visitante por diversas razões, talvez a maior delas é o contraste brutal entre a beleza inebriante do velho Chico com a miséria que vive sua população. Desgraçadamente o buteco onde estacionei oferecia uma pequena amostra da poluição humana, principal colaboradora do desgoverno crônico na sua sanha de aniquilar o rio mais belo do mundo. A visão de uma montoeira de sacos plásticos na sua beira tornou-se insuportável após alguns goles, constrangendo-me a tomar uma atitude. Decidi intervir como geriatra ecológico, gastando algumas horas conversando com as crianças do lugar sobre como poderiam colaborar para rejuvenescer o rio. Findo o sermão, a consciência parou de me alugar e enfim estava embalado para a festa do casório. Jamais vi algo igual e pela reação da população do local, estavamos empatados na nossa estupefação. As pessoas imaginavam que aquilo tudo era um filme ou mais uma destas novelas globais e passaram a ser coadjuvantes excelentes. A banda de pífaro furiosamente escoltou o casal ladeira a baixo até alcançarem o bar restaurante escolhido para a zoeira. Toinho, vestido estilo malandro carioca da década de cinquenta dominava a cena, contracenando com nativos extasiados. A festa incrementou de vez quando Antônio Carlos Ducaraju pegou o microfone e homenageou a fantástica lua cheia cantando luar do sertão. O pileque tava generalizado e a libido do povo cada vez mais exaltada. Após a meia-noite, me dei conta que já estava para lá de Bagdá; apesar disso, percebi a mulher de roxo adquirindo ares de drácula anêmico e entrando em rápido processo de cananização por São Smirnoff. Ávida por canibalismo explícito abordou a rapaziada diretamente pelo lado gastronômico…ei quem quer comer carne de sol na madrugada? Não tem ressaca que resista! Quando sua carne estava prestes a virar ingrediente de sopa húngara coletiva, o marido enfim despertou para a atmosfera de sacanagem e percebendo quão saída ela estava, decidiu intervir. Ih, a bosta tá feita pensei. Entretanto, ele veio tranquilamente até a roda, bateu no ombro do escolhido da amada, apontou para sua mulher e espirituosamente disse com inconfundível sotaque: ó xente, dizem por aí que cú de bêbado não tem dono, mas esse aí tem, viu! E é meu!

Torço para que sua atitude inspire os conterrâneos de Lages e adjacências, que ainda se matam por motivos tão estúpidos quanto…ele olhou para a minha mulher.

 

Paul Melek / setembro 2001.