CIRURGIA CURA EPILEPSIA?

CIRURGIA CURA EPILEPSIA?

Cirurgia para epilepsia foi bem sucedida, pela primeira vez, em Londres/Inglaterra em 1886. Ela foi realizada pelo cirurgião Victor Horsley, por indicação/exigência do Dr. Hughlings Jackson, um notável médico estudioso das epilepsias. Desde então, o método tem sofrido aperfeiçoamentos. Colaboração muito importante foi dada por um brasileiro, Dr. Paulo Niemeyer, nos anos cinqüenta do século passado.

Atualmente é um dos recursos úteis para o tratamento de pessoas sofredoras de epilepsia e deveria ser considerada quando:

1. Medicação anti-epilética fracassa.

2. Quando os efeitos colaterais dos fármacos são insuportáveis.

3. Quando uma causa é identificada; podendo ser removida sem graves conseqüências – morte ou mutilação neuropsicológica irreversível.

4. Quando existe uma perspectiva de cura ou de expressiva atenuação de crises incapacitantes.

Por outro lado, nestes tempos de idolatria para este método, há uma questão ansiosa por uma resposta – qual é a evolução das pessoas que desenvolvem crises epiléticas?  A imensa maioria – 80 % – irá evoluir para a cura, seja através do uso racional de alguma medicação, seja como conseqüência de sua evolução natural. E é exatamente este fenômeno da cura, que intriga e divide pesquisadores da área; seria ela espontânea ou ela seria alcançada através das drogas anti-epiléticas? Um mistério que somente poderá ser esclarecido com estudos epidemiológicos sérios e não influenciados pela indústria farmacêutica ou por adeptos messiânicos da cirurgia.

Qual a importância de discutirmos isso no Brasil? Propaganda agressiva nas mídias, com indisfarçável interesse philantrópico, recomenda a cirurgia como solução mágica para um problema milenar. E assim, de modo natural, as pessoas influenciadas por este tipo de pregação, cobram das autoridades a criação de centros especializados em cirurgia para epilepsia.

Necessário que lhes seja dito e repetido: cirurgia é um recurso útil para poucas pessoas com epilepsias severas, pois a imensa maioria irá se livrar do inconveniente das crises com o passar do tempo. Mais ainda lhes seja dito, ela poderá lhes cobrar um tributo; aliás, como qualquer forma de terapia, não importando como esta seja rotulada.

Com certeza, a cirurgia poderá servir como instrumento para alívio; cura em alguns poucos casos; porém, sua divulgação como panacéia, é criminosa e deveria ser combatida por todos aqueles verdadeiramente Médicos, que sabem muito bem que Economia e Medicina são ciências que não combinam.

Cirurgia, quando bem sucedida, apaga tão somente a parte visível das epilepsias; outros sintomas neuropsíquicos igualmente relevantes permanecem. E estes, somente Médicos bem qualificados, assessorados por uma equipe interdisciplinar e multiprofissional, são capazes de entender e de tratar.

Para minimizar os efeitos negativos deste modismo na adolescente sociedade brasileira, sugiro extrema cautela aos seus sofredores. Que tal passar um tempo por um real Centro de Epilepsia, especializado em seres Humanos, aonde poderiam ter suas crises observadas criteriosamente, e lá for tomada a decisão pela conveniência da cirurgia?

Não permitam, jamais, que um serviço com forte instinto pecuniário, faça de vocês, mero instrumento para a melhoria do status econômico de seus membros. E que depois do mal feito, entupidos de cinismo lhes digam… fizemos tudo ao nosso alcance, agora procure por seu Médico. Medicina é uma arte movida por idealismo humanista e aqueles que a praticam, deveriam ter sempre em mente um antigo provérbio açoriano – ‘honra e proveito não cabem em um mesmo balaio’.

Florianópolis, 07 de Março de 2007

Endereço para correspondência:
Dr.Paulo César Trevisol Bittencourt
Neurologia/Departamento de Clínica Médica/UFSC
88040-970 – Florianópolis/Santa Catarina/Brasil
pcb@neurologia.ufsc.br
www.neurologia.ufsc.br