CRM e Censura Literária

Ensaios e Crônicas – CRM e Censura Literária


Agradeço ao Conselho Regional de Medicina de Santa Catarina a oportunidade para falar livremente nesta casa, e, para não correr o risco de ter meu pensamento mal interpretado, ao invés de lhes falar de improviso conforme havia idealizado, lerei este documento de própria lavra.

Em primeiro lugar, gostaria de lhes confessar meu arrependimento, incomensurável arrependimento diria. Afinal quem mandou ser estúpido ao ponto de recusar convite para trabalhar em outros países deixando-se envolver por um nobre sentimento em extinção chamado patriotismo. Aqui no Brasil, quem mandou-me recusar convite para trabalho em Estados mais desenvolvidos, foi a consciência de ser cidadão catarinense. Por mais dinheiro que ganhasse, lhes digo com toda convicção que não ficaria feliz vendo a distância meu Estado natal tão atrasado em assuntos da minha especialidade.

O que realmente não levei na devida conta foi a qualidade ética de alguns membros desta especialidade, afetados por egolatria infantil, incapazes de compreender os sentimentos e a lógica de um idealista despojado de qualquer interesse “neuro-philantrópico”. E desde os mais remotos tempos sabe-se que idealistas, constituem-se nos piores adversários que indivíduos farsantes e fraudulentos podem encontrar nesta vida.

Após longos anos de abominável assédio moral, finalmente surgiu a chance de poder expressar às pessoas aqui presentes um pouco de mim. Deus, que me deu uma série de defeitos; generosamente poupou-me dos piores: hipocrisia, subserviência e burrice. Constrangido, dirijo-me aos senhores na expectativa de que meu comportamento altivo ilumine esta casa e sirva para inibir doravante qualquer tentativa de cerceamento de atividade literária. Tolher a liberdade de escrever, condenar alguém por emitir novas opiniões, sinceramente não são armas do desenvolvimento, mas sim ferramentas para a criação de um ambiente de penumbra onde somente irá vicejar a ignorância e os estúpidos de todos os matizes que dela se alimentam. Definitivamente não vim até vós para lhes pedir clemência; pois, estou convicto de não ter cometido nenhum tipo de delito. Antecipo-lhes que por formação educacional sou um homem iconoclasta, entretanto também tenho meus dogmas. Aliás, gostaria de lhes falar sobre o meu predileto, que orienta toda minha produção intelectual e que também influencia na visão peculiar que tenho da vida, enfim, especulo ser minha devoção ao mesmo o responsável pelas injuriosas referências a minha pessoa feitas por uns poucos dos seus colegas: CIÊNCIA SOMENTE É VALIDA QUANDO UTILIZADA COMO INSTRUMENTO DE TRANSFORMAÇÃO SOCIAL.

Pessoalmente, acho detestável o auto-elogio; todavia, após alguns anos escutando difamações sobre mim, é bastante provável que os senhores tenham uma idéia bem equivocada sobre o meu caráter, de quem eu sou e do que represento na incipiente Neurologia brasileira. Antes de mais nada, peço-lhes licença para lhes dizer que nunca obtive cargo algum através indicação de quem quer que seja. Em 1986, concorrendo com colegas do mundo inteiro, foi agraciado pela Federação Mundial de Neurologia com a premiação de jovem cientista neurológico por um trabalho com meningite fúngica. Passei um tempo na Inglaterra, mais precisamente no National Hospital for Nervous Diseases – Queen Square, onde fiz pesquisas na área de Epileptologia clínica. Quando retornei, descrevi pioneiramente no Brasil algumas condições neurológicas como a doença dos açorianos, a neuroacantocitose, a síndrome de Gerschwind-Waxman, a epilepsia mioclônica juvenil e em nosso Estado, o primeiro estudo sobre uma terceiromundície chamada Neurocisticercose, trabalho fartamente divulgado pelas secretarias da saúde no RS e no Paraná. Porém, os artigos que me trouxeram maior satisfação pessoal foram aqueles que denunciavam práticas aberrantes que vitimavam e ainda vitimam sofredores de epilepsias. Certamente ganhei adversários quando acusei práticas médicas inadequadas em uma colônia psiquiátrica vizinha a capital; também quando critiquei um diagnóstico francamente nefasto e tão a gosto de meus colegas chamado “Disritmia Cerebral”; igualmente quando escrevi sobre a fraude dos eletroencefalogranas; quando blasfemei contra o uso abusivo de fenobarbital como panacéia anti-epilética e mais recentemente ainda, quando comentei sobre o mau uso de uma outra droga anti-epilética chamada fenitoína, a qual prefiro chamar de “feiotoína”, tal a desgraceira estética que provoca nas mulheres usuárias. Vários destes artigos foram censurados para a publicação no jornal Arquivos Catarinenses de Medicina e dentre vós há pessoas que poderiam confirmar isso; não obstante, todos foram publicados em renomadas revistas médicas de circulação nacional e internacional, incluindo entre estes o distinto Jornal Brasileiro de Psiquiatria. Contudo, particularmente interessante, justo para denunciar aos senhores a obsessão dos meus censores, foi o ocorrido com um singelo editorial que escrevi sob encomenda do Editor de Arquivos Catarinenses de Medicina intitulado “Economicina”. Tratava-se de um texto crítico a prática médica contemporânea, que na minha opinião, supervaloriza demasiadamente o uso da tecnologia em detrimento do exame clínico. Pois bem, meu editorial foi censurado por um dos seus colegas; todavia, alguns meses após, e diga-se à minha revelia, foi publicado na íntegra pelo prestigioso jornal do Conselho Federal de Medicina. As cartas solidárias que recebi de todos os cantos do país foram minha melhor recompensa. Imaginável o impacto disso na mente do meu implacável censor, repito, conselheiro desta casa.

Apesar de tudo tenho mantido a serenidade e a ousadia de continuar escrevendo e aqueles poucos colegas que tem o saudável hábito de usar o cérebro, sabem muito bem que esta não é uma tarefa fácil, particularmente em um país sui generis como o nosso. Porém, a despeito de toda esta censura provinciana ter contribuído para me tornar conhecido nacionalmente, quero lhes salientar seu mais grave efeito colateral: impede aos colegas catarinenses de terem acesso a estas informações em primeira mão e assim poderem refinar ainda mais o atendimento que prestam aos seus pacientes. Por outro lado, também lhes gostaria de enfatizar que todos estes artigos foram publicados em revistas científicas, logo, queixumes deveriam ser educada e civilizadamente enviados aos editores das mesmas e nunca deveriam servir de pretexto para uma espécie de “caça as bruxas”. Punir o talento tão somente reforça a autoridade de trogloditas adeptos do obscurantismo e como dizia o Visconde de St. Albans há 400 anos …”um texto censurado é como que uma centelha de verdade que salta nos olhos dos que procuram apagá-la com o pé”.

Além do mais, indivíduos medíocres criticam-me pelo estilo, mas o que é o estilo a não ser o próprio homem na sua essência? Muitos da espécie humana não são possuidores de estilo algum, principalmente aqueles que se dedicam a crítica literária feroz e inconsequente. Estes, parecem lograr prazer mórbido ao tentar enlamear atividade intelectual arduamente produzida. A propósito, quando leio algo desprezível no seu conteúdo, costumo desprezar o texto; entretanto, quando ele emite opiniões discordantes ao que penso ser correto, respondo-lhe. E para isso, uso as mesmas armas do autor, papel e caneta. É profundamente melancólico constatar pessoas universitárias apelando para a vilania da censura e evidentemente rebelo-me contra isso; pois acredito que o conhecimento e a verdade surgem do contato com o que existe de bom e de mau nos escritos, cabendo ao leitor crítico extrair deles o que mais lhe agradar. Meus colegas, acreditem, em termos literários, o bem e o mal são gêmeos xipófagos, não se pode combater um sem afetar o outro. Angustiam-me algumas questões: porque estes profissionais vinculados ao ensino como eu sou, não escrevem algo também? Se pagos pela população para mostrar o caminho do progresso, porque não expõem de público suas idéias e conceitos? Porque não abandonam a tradição silvícola da transmissão oral dos conhecimentos? Senhores conselheiros, é deprimente observar a tentativa de reencarnação do espírito da santa inquisição nesta casa, com o espectro da censura literária a lhes rondar. Na minha opinião, artigos, não importando qual seja sua natureza, tampouco seu estilo, devem ser respeitados, pois eles preservam para a eternidade, como num frasco, o mais puro extrato do intelecto e da alma de quem o produziu. E se forem de má qualidade? Ora, o caminho do lixo é de longe mais sensato e prático que aquele sugerido pela tirania da censura emburrecedora.

Mas sinceramente do que esta instituição me acusa: do artigo sobre “Demência e suas causas no Estado de Santa Catarina” publicado em Arquivos Catarinenses de Medicina ou da minha versão da “História da Neurologia em Santa Catarina” publicada em livro intitulado História da Neurologia no Brasil por um colega da USP ou seriam ambos? Permitam-me constatar uma obviedade asinina: o cinismo dos meus detratores sugeria, como senha para a censura que intentam, ser a crítica sarcástica oferecida nos meus textos a uma macro instituição psiquiátrica tipo “campo de concentração” situada nas cercanias de Florianópolis. Ora, Franco Basaglia nos ensinou que depois de trezentos anos de semiotizar doentes mentais só se conseguiu mais doença e desrespeito aos direitos humanos e que se pretendemos lograr alguma mudança nesta área, temos de ser menos onipotentes e ajudar as pessoas para que elas próprias possam compreender as razões do seu sofrimento psíquico e de como solucioná-los. Até para a manutenção da psiquiatria como especialidade médica ao invés de policial, urge o desmantelamento destas macro instituições e a substituição deste modelo infeliz por serviços ambulatoriais interdisciplinares realmente reabilitadores. E grande parte do mundo, incluindo a psiquiatria mentalmente sadia, já se deu conta disso. Mas, eu estou convencido de que aqueles que originaram este processo, omitiram deliberadamente de vós as principais razões, a saber: meus comentários sobre dogmas neurológicos que bizonhamente acreditam e principalmente suas frustrações pelo meu relato da história da especialidade em nosso Estado. E eu me pergunto, como poderia descrever algo distinto daquilo que fiz se pouco fizeram para um real avanço das Neurociências entre nós? Aliás, até hoje não me perdôo por ter maquiado excessivamente alguns personagens famosos, totalmente despojados de valores científicos e mais ainda quando penso em termos de princípios éticos; aqui me é impossível ignorar a fábula: não raramente é atribuído a raposas a tarefa de cuidar de galinheiros.

Quero lhes recordar também, um capítulo deprimente nesta longa novela mexicana de assédio moral. Sem qualquer esforço pessoal para obtê-lo, tive acesso a um documento deste Conselho encaminhado ao meu escritório no Centro de Estudos do HU pela chefia do meu departamento. Neste documento que deveria ter circulação restrita a esta instituição, senão por educação mas por sigilo de justiça, o vosso colega Dr. Sá, meu crônico censor finalmente descriptogenizado, faz diversas considerações difamatórias a minha pessoa. Dentre outras leviandades afirma que por onde passei estive envolvido em encrencas (sic). Olha, fui por duas vezes eleito por aclamação para presidente da Associação dos Médicos Residentes do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná e nunca fui omisso ou desleal com meus pares nas nossas lutas comuns. Apesar do desgaste natural que este tipo de atividade promove, ao final das minhas atividades naquela casa, a direção entregou-me, em cerimônia especialmente convocada para tal, uma carta de agradecimentos por serviços prestados a melhoria do hospital. Por outro lado, na Inglaterra fui o pesquisador estrangeiro de maior produção científica na instituição onde trabalhava e naquele país até hoje tenho vários amigos. Neste mesmo citado documento, vosso colega, interrogando jocosamente a meu respeito e sobre meus escritos pergunta: será que um novo Guimarães Rosa surge em plagas catarinenses? Honestamente, desta eu poderia ter sido poupado. Certamente, fiquei lisonjeado com a comparação com um médico inteligente e sensível como foi Guimarães Rosa. Contudo, somente um acesso da mais tenebrosa inveja seria capaz de justificar a analogia inapropriada; em síntese, só um intelecto sofrível vislumbra brilhantismo onde ele não existe; pois, meus escritos primam por uma didática objetividade. Entretanto, na expectativa de educá-lo literariamente gostaria de lhes dizer que meu estilo, como ele bem sabe, é próprio; contudo, caso insista numa comparação, infelizmente para ele e seus aliados, devo reconhecer que o mesmo está mais próximo do de Gregório de Matos Guerra que de Guimarães Rosa. Porém, apesar de imprópria, agradeço sua comparação; admito entretanto que neste caso, as teorias “fraudeanas” se aplicam: inveja mal dissimulada é um sentimento comum entre ignorantes da mesma espécie.

Um outro enfoque interessante que este caso suscita seria o questionamento da capacidade de conselheiros, indivíduos transitórios dentro de uma instituição perene, de abrirem processo ex-ofício contra colegas por mera birra pessoal, configurando mesquinha perseguição. E esta instituição, pela nobreza dos seus fins e para não se deixar macular por indivíduos inescrupulosos, deveria buscar instrumentos para inibir tais iniciativas. Atualmente, diversos conselhos já dispõe de um membro especial para tal finalidade: filósofo especialista em bioética. Estes profissionais não votam, mas opinam sobre casos duvidosos, agregando luz onde as trevas da perseguição pessoal sorrateiramente transitam. E é como membro inscrito neste conselho que gostaria de lhes recomendar a contratação deste tipo de profissional.

Finalmente, será que realmente meus panfletos possuem todos estes defeitos que meus poucos, porém socialmente poderosos censores insistem em difundir? As mais de 40000 visitas contabilizadas na minha página pessoal www.neurologia.cjb.net e o teor das cartas que recebo diariamente dizem-me claramente que não. Por isso, seguirei escrevendo e publicando não importando qual seja vossa decisão; pois, o mais importante nesta vida fugaz é obedecermos aos ditames da nossa consciência, antes que cedermos a pressões de pretensos aristocratas de índole reacionária que se opõem a livre discussão das idéias e que por isso deveriam ser responsabilizados pelo subdesenvolvimento desta charmosa nação. Do filósofo inglês John Milton, no seu célebre discurso em defesa da liberdade de expressão feito no parlamento britânico em 1644, extrai e adaptei este pequeno e emblemático trecho para reflexão por parte de todos aqui presentes: … A verdade científica é comparada nas Escrituras a uma fonte que jorra água cristalina. Quando suas águas não correm numa progressão perpétua, degeneram em uma poça lodosa, estagnada de conformismo e tradição.

Por outro lado, será que estas pessoas que me ofendem realmente possuem as virtudes que apregoam ter? Muitas vezes ao longo das nossas existências louvamos amigos sem que os mesmos exibam qualidades que as justifiquem e num gesto de adulação, assumimos como verdades insofismáveis todas as opiniões que eles emitem sobre terceiros, sem ao menos nós os conhecermos. Na verdade, nossos amigos quando em dificuldades buscam a nossa solidariedade na expectativa que apliquemos a velha máxima siciliana … inimigo do meu amigo é meu inimigo também ou aquela caseira ainda mais hedionda… aos amigos as benesses da lei, aos inimigos os rigores da lei. Bons amigos são justamente os mais vulneráveis a este tipo de apelação e costumam abdicar da inteligência e da imparcialidade que qualquer julgamento sério exige para ser minimamente justo. Finalizando, recordo-lhes uma frase de um sambista carioca, cada vez mais em voga nestes tempos de competição desenfreada e de sistemática agressão aos princípios da Ética: quando mais eu conheço gente mais eu gosto do meu cachorro. Infelizmente, meu bom amigo Max faleceu recentemente e é a ele que dedico estas palavras. Muito grato por sua atenção.


Paulo Cesar Trevisol Bittencourt

Florianópolis, 05 de outubro de 2002