ECONOMICINA

Ensaios e Crônicas – ECONOMICINA

A ARTE CAPAZ DE COMPLEMENTAR AS FINANÇAS, CONFUNDIR MÉDICOS E LUDIBRIAR PACIENTES

Paulo Cesar Trevisol-Bittencourt

 


Quando contemplo os avanços tecnológicos aplicados a ciência médica, fico nutrindo um sentimento ambíguo; pois, eles são capazes de me provocar sensações bem antagônicas; formidáveis em um aspecto, nauseantes em outro. Reconheço que a geração a qual pertenço, viu saciada sua fome por recursos diagnósticos fabulosos; contudo, muitas vezes pergunto-me se eles realmente contribuiram para um aperfeiçoamento da arte médica.

Há alguns anos escutei de um colega algo que desde há muito estava intuindo: “Medicina é a arte de entreter a doença, enquanto a mãe natureza faz o seu papel”. Este é um antigo provérbio hindu; uma gente, que apesar de dispensar a proteína bovina (ou quem sabe em virtude disso), desenvolveu uma sabedoria ímpar.

Porém, eu estou convicto de que o provérbio, não se aplica a todas as situações do cotidiano médico. Entretanto, acredito que qualquer bom curandeiro, letrado ou não, aumentaria em muito a sua eficácia, se tivesse claro este preceito. Aliás, prezado colega médico, pare um momento e reflita sobre sua clientela e os problemas que lhe são apresentados rotineiramente. Penso, que após uma breve reflexão, você perceberá que tal princípio, encontraria respaldo na maior parte dos sintomas apresentados pelos teus pacientes.

Tome-se como exemplo disso, a informação trazida pela epidemiologia contemporânea, de que, muito ao contrário do que se pensava no passado, 80 % (oitenta por cento) de todos os indivíduos que desenvolvem alguma forma de epilepsia, com o passar dos anos, ficarão livres das suas crises. Pasmem, pois isto ocorre, com, sem ou apesar de qualquer tratamento medicamentoso. É bastante provável também, que isto se aplique a diversas outras condições nosológicas e que esta seja a melhor explicação para a fama alcançada por muitos terapêutas alternativos.

Por outro lado, nos dias de hoje, aparentemente não se precisa de cérebro para exercer uma boa prática médica; as máquinas fazem tudo, sugerem arautos da Economicina. Esta é uma nova e bizarra ciência, patrocinada por empresários travestidos de médicos, com marcante e péssimamente dissimulado interesse pecuniário exclusivo. Tais profissionais difundem na sociedade, o conceito de que para o exercício de uma boa medicina, são essenciais os recursos tecnológicos que oferecem. E esta é uma assertiva absolutamente falsa; mais um repelente sofisma, dentre os vários que somos obrigados a aturar diuturnamente.

O mais nefasto, é que esta filosofia parece ter contaminado o ensino médico. Constrangido, observo que vários médicos mais antigos, alguns deles verdadeiras enciclópedias ambulantes da arte da boa curandeiragem, acabaram jogando no lixo toda a sapiência acumulada ao longo de décadas de trabalho, de observação de doentes e de doenças, e se transformaram também em contumazes e acríticos usuários da parafernália complementar moderna.

Muito provavelmente, não suportaram a pressão do lobby tecnológico, e, para não aparentarem ignorância diante de seus discípulos e de profissionais jovens, recém egressos de escolas médicas com tecnologia de ponta, entraram na onda supostamente avançada. É tragicômico constatar que costumeiramente ignoram o exame solicitado, restringindo-se a um ridículo exame do laudo. Como resultado desta prática, constato estarrecido, toda uma vasta cultura médica, insegura e derrotada por princípios que obedecem a regras muito mais próximas da Economia, que da Medicina que aprenderam e ensinaram no passado. Com esta conduta esdrúxula, contribuem para esquartejar uma lei básica da arte médica: exame complementar é exame complementar! Utilíssimo e indispensável quando pretendemos confirmar (ou descartar!), um raciocínio diagnóstico embasado em uma criteriosa anamnese e judicioso exame clínico. Nada além disso! É perversamente anti-didático e bestial, a mutilação de um raciocínio clínico objetivo, na ânsia de explicar o resultado de um exame complementar incongruente com o diagnóstico aventado. E as exceções? Ora, são exceções. Tão incomuns, que devemos obedecer a regra geral elementar.

Voltar a valorizar e ensinar que o melhor exame complementar, ainda é o velho e ultrajado exame clínico, é tarefa de todos aqueles envolvidos no ensino do médico do amanhã. A pena aos omissos, vislumbro ser grave: já deteriorados cognitivamente pela ação do tempo, terão de enfrentar o mesmo calvário trilhado pelas pessoas anônimas que hoje atendem. Exemplificando: Doutor(a), vamos ter que fazer uma densitometriazinha óssea, só para atestar que a sua dorzinha é causada por istepôrose ( ou talvez por um biquinho de papagaio mal educado?); ou um ultrassom só para confirmar que seus sintomas abdominais típicos são causados por apendicite, ou que tal uma angio-ressonância magnética, só pra documentar, que a sua demência é consequência de acidentes (?) vasculares cerebrais, devido aos seus quinhentos anos de hipertensão e de diabetes não controlados; e assim por diante.

O comportamento passivo diante das aberrações do comportamento humano, é uma das marcas mais contundentes da maneira de ser subdesenvolvida, e, as pessoas de boa índole e de real espírito científico, deveriam ser capazes de se rebelarem diante do insulto a inteligência, que está sendo transformada a prática médica atual. Até consigo entender (mas não justificar!), as dificuldades de natureza econômica, que transformaram vários médicos em economicistas; porém, tenho sérias reservas em aceitar como normal, a fraude que campeia e que perverte o exercício desta nobre profissão.

A propósito, e a julgar pela experiência ao longo destes últimos 15 anos, sugiro muita cautela aos profissionais verdadeiramente médicos, ao interpretarem alguns destes exames que solicitam, e que acabam em grama. Certamente que são métodos complementares diagnósticos úteis, quando solicitados e realizados criteriosamente;contudo, devo admitir que atualmente, grande parte deles seriam mais fidedignos se acabassem com o sufixo GRANA.

Assim, temos em profusão: ecogranas diversos, eletroencefalogranas, eletrocardiogranas, eletromiogranas, tomogranas, etc; enfim, toda sorte de desatinos, nas mais diferentes especialidades médicas. Além disso, é fácil identificar, vários outros exames complementares frequentemente solicitados, que a despeito de não acabarem em grama, também nada acrescentam (em termos clínicos), exceto o de contribuirem para uma melhoria na conta bancária dos economicistas responsáveis pelos mesmos. Aliás, o uso  philantrópico do chamado Mapeamento Cerebral é um bom exemplo disso.

Porém, o mais hediondo em todo este processo, é perceber que inúmeros pacientes acabam por receber prescrições com drogas não inocentes, para o tratamento de exames complementares supostamente alterados e neste circuito mórbido, os efeitos colaterais dos fármacos utilizados passam surrealmente a justificar ainda mais exames.

Até parece que o Brasil está mesmo fadado a se transformar em Brazil. Dentre tantos modelos racionais de prática médica; sendo particularmente exemplares os de alguns países da Europa setentrional, estamos importando justamente um dos mais equivocados. Refiro-me aquele usado pelos primos ricos do norte; que por sinal, estão com seu sistema de saúde próximo a bancarrota, devido justamente a hipertrofia gigantesca desta estapafúrdia economicina.

Em nome da inteligência e da sensatez, as escolas médicas brasileiras deveriam trilhar um caminho próprio e parar de fazer a apologia do modelito ianque. Já dizia Goethe há muitos anos que o indivíduo inteligente aprende com a experiência dos outros e o burro pela própria. O Brasil, produto de uma formidável miscigenação racial, é inteligente e deveria dar um basta na sua adolescência crônica.

Por suas peculiaridades, hospitais de ensino, deveriam contribuir para um controle desta epidemia economicista, resgatando a dignidade da prática médica, estimulando e disciplinando o uso racional dos formidáveis recursos diagnósticos complementares desenvolvidos pela bio-tecnologia.

Florianópolis, 27 de Novembro de 1997.

 

Dr. Paulo Cesar Trevisol Bittencourt MD/MSc
Professor da Disciplina de Neurologia/UFSC
Presidente do Centro de Estudos do Hospital Universitário/UFSC
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