História da Neurologia em Santa Catarina

Ensaios e Crônicas – História da Neurologia em Santa Catarina

Em primeiro lugar, devo-lhes dizer que inquietou-me o honroso convite para escrever sobre a história da minha especialidade em meu estado natal. Durante uma semana pensei seriamente em recusá-lo; ponderava para mim próprio: pô, ainda não estou velho o suficiente; pois, acredito que história e estórias, deveriam ser narradas por indivíduos que já vivenciaram tudo, ou quase tudo, desta fugaz existência que usufruímos. Além disso, apesar de reconhecer estar teimosamente vinculado a neurologia; desde há alguns anos, a sedutora botânica, deixou de ser um hobby de fins de semana. Na verdade, preocupa-me mais no momento, o estado lastimável da formosa mata atlântica, após 500 anos de perverso descubrimento. Contudo, após uma semana de reflexão, dialogando com minhas plantas favoritas, dei-me conta de que a jovialidade dos vinte havia partido sem qualquer aviso prévio e que afinal um cérebro quarentão não é dos piores. Na verdade, ele assemelha-se com um baú, onde se encontra de tudo, desde aquele estimado e inútil lixo pessoal até as experiências mais gratificantes. Tudo isso com a vantagem de ainda estar a salvo da implacável deletadora da memória, a germânica Alzheimer. Logo, admiti que seria capaz de desincumbir-me desta tarefa. Entretanto, apesar de adotar a imparcialidade como regra obsessiva ao longo da vida, antecipo-lhes a possibilidade de omitir algo, por ignorância do fato, ou, por preceitos éticos pessoais. Por um outro lado, é possível que alguns profissionais envolvidos neste processo, sintam-se injustiçados, reivindicando uma participação mais exuberante daquela que realmente tiveram. Por isso, corro consciente o risco da hostilidade gratuita da parte de néscios indolentes; porém, afirmo-lhes que o texto abaixo, procura ser um retrato fiel daquilo que vislumbro como mais relevante na história da incipiente neurologia catarinense.

Inicio lhes contando que há cêrca de 20 anos atrás, trabalhando como acadêmico de medicina em uma espécie de campo de concentração estatal para doentes mentais, situado nas cercanias de Florianópolis, chamado outrora de Colônia Psiquiátrica Santana; durante uma madrugada insone, bisbilhotando antigos prontuários, reconheci surpreso várias evidências de práticas neurológicas distintas empreendidas nas décadas de 40-50. Elas variavam desde testes sorológicos para neuro-lues, até hipóteses diagnósticas interessantes; como Guillain-Barrè, coréia de Huntington e esclerose em placas, por exemplo. Esta instituição entrou em funcionamento no início dos anos quarenta e atualmente exibe o pomposo nome fantasia de Instituto de Psiquiatria, sendo IPQ a sigla adotada pela novel instituição (recentemente foi-lhes sugerido acrescentar mais uma consoante a sigla proposta: P; pois, IPQP ficaria mais charmoso e auto-explicativo para a vil medicina ainda praticada no seu interior). A despeito de rudimentares, creio que elas foram a introdução da neurologia em nossa sociedade. Como nesta colônia, eram internados sistematicamente todos aqueles indivíduos com sintomas psiquiátricos, procedentes das mais diversas regiões do nosso Estado, é presumível que naquele zoo-ilógico humano, diversas condições neurológicas fossem também lá encontradas. E de fato, vários prontuários médicos revistos, demonstravam insofismavelmente que pacientes com genuínas enfermidades neurológicas, eram também lá confinados.

Estranha e paradoxalmente para mim naqueles dias, percebi que alguns profissionais da época exibiam um bom conhecimento de semiologia neurológica, de nítida inspiração francesa. Aliás, a julgar pelo formidável acervo bibliográfico neurológico ainda disponível nos anos 70, com obras clássicas de vários autores europeus, poderia inferir que neurologia como ciência emergente, era profundamente valorizada pelos profissionais que trabalharam pioneiramente naquela casa. Além disso, é bastante provável que alguns daqueles colegas, estimulados pela forte influência franco-alemã daqueles tempos, fossem verdadeiros neuro-psiquiatras. Dentre estes especialistas híbridos, destaco por seu notável saber, a figura do Dr. João Harold Bertelli. Preocupava particularmente a este colega, a situação daqueles pacientes com epilepsia e foi o Dr. Bertelli, o pioneiro entre nós na defesa de uma abordagem mais racional e científica dos sofredores desta condição. Além de ter sido o responsável pela introdução da eletroencefalografia em nosso meio, propunha um tratamento diferenciado a estes peculiares pacientes, enfatizando a necessidade de um ambulatório específico para eles.

Lamentavelmente, toda aquela formidável biblioteca pertencente a antiga Colônia Santana, foi sendo destruída pela ação do tempo; ou como pessoalmente acredito, foi na verdade pura e simplesmente roubada, passando a fazer parte de bibliotecas particulares de delinquentes vulgares, que costumeiramente confundem patrimônio público com privado. Curiosamente, é possível estabelecer um paralelo entre o vandalismo denunciado e o desaparecimento da neurologia embrionária que lá se desenvolvia. A colônia, com o passar dos anos, foi gradualmente se psiquiatrizando por inteiro, perdendo a elegância acadêmica que lhe caracterizava nos seus primórdios e que servia como atenuante para o ultrajante confinamento que impunha aos seus desgraçados pacientes.

Algo novo surgiu somente nos anos 60, quando o Dr. Dario Garcia, especializado no Rio de Janeiro, iniciou em nossa capital a primeira clínica exclusivamente neurológica do Estado. Ele foi secundado pelo Dr. Paulo Norberto Disher de Sá, com formação semelhante, e pelo Dr. Saulo Caires Berber que fez seus estudos em São Paulo. O Dr. Sá foi o primeiro professor de neurologia do curso de graduação em medicina da universidade federal. Estes profissionais, coadjuvados pelo Dr.Bertelli, contribuiram decisivamente para o início de uma nova visão, que poderia ser definida como a despsiquiatrização de muitos pacientes com enfermidades neurológicas típicas em nossa sociedade. Além disso, foram também os responsáveis pela introdução em nosso meio, dos fundamentos práticos da moderna neurologia. No entanto, apesar de serem virtuosos no cotidiano, não tiveram a preocupação científica de criar escola. E este, é um preceito fundamental para o desenvolvimento de neurologia como ciência em qualquer sociedade.

Um acontecimento louvável ocorreu na década seguinte. Em meados de 70, sob a inspiração e liderança de um neurocirurgião nativo, treinado no Uruguai, o Dr. Evandro Oliveira, fundou-se no Hospital de Caridade de Florianópolis, mais precisamente na ala chamada irmã Bernadete, o primeiro serviço de Neurologia-Neurocirurgia do nosso estado. Neuro-radiologia e neuro-enfermagem, foram subespecialidades desenvolvidas nesta ocasião. Neurologistas exerciam neurologia e neurocirurgiões ocupavam-se de neurocirurgia. Este pacto, aparentemente banal, revelou-se de essencial importância para o desenvolvimento simultâneo de ambas especialidades. Pessoalmente, acredito serem estes anos, os mais profícuos da neurologia do passado e o sucesso obtido, deve ser atribuído a política implementada de divisão do trabalho. Destaco mais uma vez, por inusitado, sob inspiração de um profissional da neurocirurgia, com notável inquietude intelectual direcionada para o desenvolvimento das neuro-ciências e desprovido interesse imediato em neuro-economia. Infelizmente, o serviço teve duração fugaz. Sua desagregação seguiu-se imediatamente a partida do elemento aglutinador para trabalhar em São Paulo. A mentalidade de serviço, sucumbiu diante do egocentrismo patológico predominante. Restou do episódio, a suspeita, cada ano mais convincente, de que desenvolvimento neuro-científico e economia não tem muita afinidade. Como padeço de marxismo residual, refratário às tradicionais liberaciclinas (e as modernas neoliberazonas também!), algum leitor sofrendo de comunistofobia severa, poderia arguir que esta assertiva é produto das minhas convicções ideológicas. Entretanto, reafirmo minha crítica citando um adágio comum (e muito mais antigo que Karl Marx) entre a gente açoriana da nossa capital: honra e proveito não cabem no mesmo balaio.

Concomitantemente, nesta mesma década também, nas principais cidades do interior, foram criados diversos serviços de Neurologia. Porém, quase que invariavelmente, estes eram liderados por neuro-cirurgiões; que obviamente, exercitavam mais neurologia clínica que neuro-cirurgia propriamente dita, e, é mister reconhecer, que isso resultava em um arremedo de neurologia. Somente à guisa de exemplificar esta insinuação, cito o fato de que vários destes profissionais tinham como carro chefe, a prática da eletroencefalografia, recém introduzida no Estado. Desnecessário, por óbvio, discorrer sobre as iatrogenias cometidas. A propósito, de tanto ver EEGs bizarros, num dia de desabafo, decidi cunhá-los com uma expressão mais apropriada; pois, tratavam-se na verdade de ridículos eletroencefalogranas. A bem da justiça, reconheço que a neurocirurgia não tinha o monopólio desta aberração comprometedora do método desenvolvido pelo notável Hans Berger; pois, alguns neurologistas também o faziam .

Um outro aspecto singular que deveria ser ressaltado é que a grande maioria destes colegas, recebeu treinamento na meca da neurologia-neurocirurgia do sul do país naqueles tempos: o renomado Hospital de Clínicas da cidade de Montevidéu/Uruguai. Assim, em várias cidades catarinenses importantes, a especialidade neuro-cirúrgica, prosperou rapidamente e acabou por sufocar a neurologia clínica por vários anos. Enfatizo, que em algumas cidades, neurologia continua sendo exercida exclusivamente por neurocirurgiões até nos dias atuais. Contudo, dentre estes serviços, quatro deles tiveram especial desenvoltura e merecem destaque: em Joinville, norte do Estado, um grupo de origem mineira, sob a liderança do Dr. Ronald Moura Fiúza; no vale do Itajaí, em Blumenau, com o Dr. Luiz Renato G. Mello sendo o responsável e no sul do Estado, os Drs. Marcos F. Ghizoni na cidade de Tubarão e José Borges de Medeiros em Criciúma, foram peças fundamentais. Todos, aparentemente, estão evoluindo em direção a criação de serviços modernos integrados por múltiplas subespecialidades neurológicas. Além destes, devem ser igualmente considerados os serviços de neurologia da progressista cidade de Chapecó, no oeste do Estado, cuja paternidade é ainda discutida, e o pioneiro da princesa da serra, Lages, fundado pelo Dr. Telmo Ramos Ribeiro. E talvez, justo para demonstrar que inexiste regra sem exceção, na formosa cidade ítalo-germânica Rio do Sul, situada no alto vale do rio Itajaí, o Dr. Edemar Marcon, de formação distinta dos demais anteriormente citados, iniciou também nesta época sua clínica exclusivamente neurológica.

Apesar de tudo, felizmente, percebe-se muito claro atualmente, que médicos com formação específica em neurologia clínica, passam finalmente a ocupar o papel que lhes deveria ser destinado desde o princípio. Esta mudança foi deflagrada a partir do final dos anos 70, sendo prazeroso constatar nos dias de hoje, a presença de neurologistas em todas as cidades catarinenses consideradas de médio-grande porte. Segue uma relação, talvez incompleta, dos nobres colegas pioneiros, responsáveis pela introdução da especialidade no interior do Estado durante este período: Dra. Helga Mayer e Dr. Walter Roque Teixeira (Blumenau), Dr. Carlos R.M.R. Barros (Araranguá), Dr. Vicente Augusto Caropreso (Jaraguá do Sul), Dr. Nabil Bittar (Caçador), Dr. Roman Marik (Xanxerê), Dr. Eduardo Luiz Espíndola (São Bento do Sul), Drs. Estevão Demétrio e Roosevelt O. Souza (Itajaí), Dra. Júlia M.S.Pereira (Tubarão) e o Dr. José Cion (Brusque). Tais profissionais foram oriundos, em sua maioria, das diversas residências neurológicas existentes no sul do Brasil. Porém, nos dias de hoje, uma parcela expressiva dos novos profissionais tem formação autóctone, visto que dois hospitais do nosso Estado oferecem possibilidade para treinamento na especialidade. A primeira residência em neurologia de Santa Catarina foi criada ao final dos anos 80, sob a liderança do Drs. Luiz Otávio Cavallazzi e Luiz Carlos Coral, no Hospital dos Servidores da capital do Estado. Em meados da década atual, o Hospital Universitário vinculado a UFSC, também iniciou com um programa de residência nesta área. Assessorado por acadêmicos de notável inteligência, dentre os quais destacaram-se Li Li Min e Maria Verônica Munhoz Rojas, tive a primazia de ter sido o responsável pela iniciativa e organização do programa. No momento, o Dr. Sá exerce sua preceptoria. A despeito de suas notórias deficiências, elas representam a perspectiva de um desenvolvimento mais rápido das neuro-ciências em nossa sociedade.

Esta generosa década de 80, testemunhou também um outro fato significativo. Precisamente no princípio de 87, funda-se a primeira Clínica Multidisciplinar de Epilepsia do Estado. Inspirada no Chalfont Centre for Epilepsy da cidade de Londres, ela integrou serviços de: Psicologia (Cristini Piacentini Boppré), Enfermagem ( Raquel Leal Ferreira e Carbajal Silvestrin), Assistência Social (Vera Lúcia Uchoa e Ilma Gaspar da Silva) e Eletroencefalografia (Drs.Bertelli, Li Li Min e atualmente a Dra. Suzana Costa Nunes Machado), sob a nossa direção. Ela é vinculada a rede pública de saúde, funcionando desde o seu início na Policlínica Regional I/SUS, localizada em Florianópolis. Ao longo destes anos, ela tem propiciado treinamento a vários profissionais de distintas áreas e o eficaz modelo de atendimento tem sido difundido para outras cidades catarinenses. O seu sucesso, viabilizará em breve tempo, a concretização do sonho inicial de dotar Santa Catarina de um Centro de Epilepsia, com características similares aqueles existentes em sociedades desenvolvidas. Aqui faz-se necessário registrar, uma colaboração que foi de vital importância para o desenvolvimento da epileptologia catarinense. Refiro-me a participação de um gaúcho, natural de Nova Petropólis, radicado desde há cerca de 15 anos em Londres, trabalhando junto ao renomado National Hospital for Nervous Diseases e Chalfont Centre for Epilepsy: o Dr. Josemir Wanderley Sander Alves da Silva. O respeitado epileptologista Dr. Sander, foi introduzido na Neurologia no princípio da década de 80, quando fez residência de Clínica Médica no Hospital de Clínicas da Universidade do Paraná. Apesar de algumas divergências políticas naquela época, estabelecemos sólida amizade e desde estão ele tem visitado nossa província frequentemente, trazendo estímulo científico constante, com transferência de conhecimentos (e de dúvidas também!). Além disso, é solidário durante as vicissitudes da vida moderna. Resumidamente, estes são alguns dos motivos que o credenciam a esta justa homenagem e ao perene agradecimento dos catarinenses. Apesar de ser natural do estado vizinho e de ter feito sua graduação no Paraná, pela longa convivência com nossa realidade, posso-lhes afirmar que o ilustre colega pertence a tribo catarinense, sendo aliás, um dos seus membros mais notáveis.

Concernente a história de exames complementares, devo lhes dizer que procedimentos neuro-radiológicos agressivos diversos, com morbi/mortalidade nada desprezíveis, já eram realizados desde os anos 60 no Hospital de Caridade de Florianópolis; mas, foi na germânica e bela Blumenau, no princípio dos anos 80, que foi instalado o primeiro aparelho de tomografia computadorizada em Santa Catarina. Recordo o frenesi que isto causou entre nós. Sem qualquer exagero, poderia se afirmar que toda população neurológica (e igualmente a neuroticológica) do estado, aspirava ser um dia encaminhada a Blumenau para fazer uma tumografia da cabeça. Entretanto, apesar da atmosfera histérica reinante entre ambos, médicos e pacientes usuários, dentre outros aspectos positivos, o moderno exame primeiro-mundista, ironicamente contribuiu para um reconhecimento precoce da ocorrência em níveis terceiro-mundistas, e frequentemente mal interpretada, de neurocisticercose entre nós. Seguiu-se uma difusão de cunho infeccioso-philantrópica do método por todo o Estado; aliás, idêntica àquela observada outrora com a eletroencefalografia. Um fenômeno similar tem sido notado em relação a ressonância magnética; assim como, de instrumentos neurofisiológicos diversos; muitos deles, reconhecidamente imprescindíveis para um rápido e apropriado diagnóstico de várias condições neurológicas distintas. Porém, é perfeitamente dispensável uma bola de cristal para prever que esta avalanche neuro-tecnológica, acabará produzindo raciocínios diagnósticos tão esdrúxulos, que exigirão no futuro a presença de um neurologista do tempo da pedra lascada para destrinchá-los.

Já em termos de produção científica, percebe-se um início tímido nos anos 70; porém, com um notável incremento a partir da década de 80, em estreita conexão com as atividades desenvolvidas pela Clínica Multidisciplinar de Epilepsia. Ela segue em ascensão nesta década, com várias publicações de autores catarinenses nos principais jornais neurológicos do nosso país. Alguns poucos, sendo também divulgados em renomados periódicos internacionais. Igualmente, a participação em congressos da especialidade, tem recebido uma crescente contribuição catarinense. Uma premiação internacional foi obtida neste período, mais exatamente em 1986, durante o XIII Congresso Internacional de Neurologia, Hamburgo/Alemanha. Por um estudo com neurocriptococose, fomos um dos agraciados naquele conclave, pela Federação Mundial de Neurologia, com o lisongeante diploma de jovem cientista neurológico.

Em resumo, sobre a gênese da nossa neurologia, poderia reafirmar que ela foi gerada em um hospício degradante, adotada e mal-criada pela neurocirurgia e agora, adolescente, desafiando dogmas fraudeanos, envereda finalmente por caminhos verdadeiramente neurológicos. É bem verdade que neste exato momento, ela assemelha-se a uma espécie de latifúndio improdutivo carente de reforma agrária; todavia, reconheço que finalmente subespecialidades estão desabrochando e um venturoso futuro lhe espera. Contudo, egolatria que ainda acomete alguns profissionais em posição de comando, produzindo bisonha cultura de auto-suficiência e refratária ao progresso, é ainda um dos obstáculos principais para a criação de reais serviços de neurologia neste Estado. Para ser neutralizada, bastaria tão somente, admitir como trivial a convivência com indivíduos de índoles diferentes, honestos e realmente capazes; pois, bem ao contrário da homogeneidade serviçal e aduladora que alguns ainda perseguem, esta é a base de qualquer esforço desenvolvimentista. Estúpida e hedonísticamente, uns poucos insistem em não levar em conta que a vida é um fenômeno fugaz e que o implacável julgamento da história, não irá considerar quão frequentes foram citados em colunas sociais, nem o tamanho das suas propriedades ou do capital acumulado e tão pouco reluzentes automóveis; mas sim, quais foram suas reais contribuições profissionais para a melhoria do zoo-humano enquanto existiram.

Entretanto, de maneira análoga ao nosso charmoso país, que progride apesar de crônico desgoverno, tenho firme convicção nas potencialidades enormes da neurologia catarinense. No terceiro milênio, justo depois de amanhã, é previsível um salto fantástico na qualidade/quantidade da produção neuro-científica entre nós. Esta crença não deve ser confundida como um exercício de futurologia mercadológica ora vigente; mas sim, embasada na confiança de que a formidável salada genética aqui forjada, resultará em cidadãos íntegros, inteligentes e criativos. Tenho a esperança de que alguns destes indivíduos, devidamente estimulados, entenderão neurologia como ela realmente merece: com ene maiúsculo, ansiosa, questionadora, não philantrópica e buscando obsessivamente novos caminhos. Estes serão profissionais por inteiro. Muito provavelmente, o Brasil ainda irá se orgulhar dos Neurologistas desta terra.

Endereço para correspondência:
Dr.Paulo César Trevisol Bittencourt
Neurologia/Departamento de Clínica Médica/UFSC
88040-970 – Florianópolis/Santa Catarina/Brasil
pcb@neurologia.ufsc.br
www.neurologia.ufsc.br