A quem interessar possa

Ensaios e Crônicas – A quem interessar possa

Meu nome é Paulo Cesar Trevisol Bittencourt, sou nascido em 04/02/54 e trabalho atualmente na Universidade Federal de Santa Catarina, onde exerço a função de professor de Neurologia, e para o Serviço Nacional de Saúde, onde sou o responsável pela Clínica Multidisciplinar de Epilepsia do nosso Estado. É com prazer que faço algumas considerações sobre minha família e em particular sobre minha irmã Gina.

Nossa família é composta por onze irmãos, por isso considero que a expressão tribo é a mais conveniente para defini-la. Nossa tribo é o produto da união entre Eduardo Bittencourt e de Ida Baldessar Trevisol. Nosso pai, já falecido, tinha múltiplas raças na sua origem. Ele era o produto de uma salada genética, que incluia sangue francês, açoriano e índio nativo do Brasil. Nossa mãe, também nascida no Brasil, é uma mulher de origem italiana. Seus avós vieram do norte da Itália no final do século passado, para colonizar o sul do Brasil.

Nós nascemos em uma região de cultura italiana, no extremo sul do Estado de Santa Catarina, que aliás, pertence a região sul do nosso país e tem uma área aproximada de 95.000 Km2. Nesta parte do Brasil, pode-se encontrar indivíduos de todas as raças do universo. Na verdade, é um grande zôo humano e as pessoas que aqui vivem, estão num processo de intensa miscigenação. Entretanto, em nosso Estado, predominam as raças/culturas: açoriana, italiana e germânica. Podería-se dizer que cada uma destas contribui com um terço da população em geral, estimada atualmente em 5 milhões.

Nosso pai era farmacêutico, e como médicos eram raros 40-50 anos atrás em nosso local de origem, ele atuava como o médico do lugar. Tinha uma intuição prodigiosa e um excelente instinto de curandeiro, e muito provavelmente por estas virtudes, acabou por ficar muito famoso naquela região. Por outro lado, ele fazia um tremendo esfôrço para que todos os seus filhos se transformassem também em curandeiros; porém, com títulos acadêmicos. Neste sentido, e apesar de não ser uma pessoa rica em têrmos econômicos, sempre nos propiciou acesso às escolas de melhor qualificação. Todos os membros da nossa tribo sempre frequentraram escolas de bom, melhor dizer excelente padrão, na região em que vivíamos. Além disso, tínhamos a disposição em nossa casa, uma biblioteca formidável; pois, nosso cacique, a despeito das dificuldades econômicas, e para irritação de nossa mama, tinha como hábito comprar todas as enciclopédias ou livros que lhe eram oferecidos.

Em virtude disso, não é de estranhar que seis entre os onze se transformaram também em curandeiros modernos; dentre estes esta Gina. Os cinco restantes, optaram por carreiras distintas: dois são engenheiros, um é dentista, um é economista e a última é psicóloga. À propósito, devo salientar que em minha opinião, poucos médicos modernos merecem a alcunha honrosa de curandeiro; pois, expressiva parte deles nada mais são que eternos solicitadores de exames complementares que mal sabem interpretar, ignorando que o exame mais esclarecedor persiste sendo o anacrônico exame clínico.

Cenas da nossa infância são muitas, maioria delas são agradáveis de recordar; contudo, faço questão de relembrar uma delas. Após oito filhos homens, nós tivemos Gina, que apesar das evidentes diferenças, costumava jogar futebol com a gente e nosso pai era extremamente zeloso com ela, não aprovando suas incursões futebolísticas; pois, futebol é coisa para homem. A despeito disso, Gina desenvolveu fundamentos neste esporte, sendo por nós considerada como um Pelé em miniatura e por esta razão lhe era permitido jogar entre nós algumas vezes. Praticávamos futebol, muito próximo a nossa casa, em um terreno baldio, onde circos e ciganos costumavam acampar também. Aliás, que saudade da bela ciganinha; poderia ter sido tudo diferente… há se aquele street dog cigano não fosse tão agressivamente neurótico…

Muitas vezes jogávamos sob a iluminação do luar; jogar durante a noite aguçava alguns dos nossos sentidos e piorava outros; porém, reconheço que era uma coisa fantástica, sendo muito difícil transmitir este sentimento para um urbanóide da atualidade. É bem verdade que éramos grandes consumidores de uma pomada chamada ZIG (que hoje atende pelo nome de gelol) e assíduos frequentadores das clínicas de ossos da cidade; contudo, hoje, muitos anos após, percebo o quão importante foi tudo isso para a nossa formação.

Entretanto, numa noite fui a um daqueles circos que interditavam periodicamente nosso Maracanã primitivo e fiquei maravilhado com as peripécias de um homem. Com rara maestria, ele atirava facas bem próximas ao corpo de uma bonita mulher, imóvel em um pedaço de madeira. As facas arremessadas pelo artista circense, fincavam há milímetros do seu corpo sem atingi-la. Dormi acordado naquela noite. Na manhã seguinte, precocemente iniciei minha carreira de neurologista, onde otimismo, perfeccionismo e obsessão, em pequenas doses, são pré requisitos indispensáveis: Gina vem aqui, fica parada junto aquela porta que vai começar um grande show. Eu já havia passado duas horas antes, treinando como atirar facas e enfim arrumei uma cobaia, para me certificar que estava um expert na matéria. A infeliz Gina, ficou imóvel junto a porta enquanto eu ficava babando disparando facas. Como elas espetavam longe do seu corpo, fui arremessando-as cada vez mais próximas, até que uma delas espetou no seu pé direito. Até parecia uma cena bíblica, minha irmã cravada na madeira por uma estúpida experiência. Gastei três longos dias andando a esmo na minha cidade, para não ser esfolado por nosso pai, que andava furioso a minha caça. Pelo menos tive a oportunidade de conhecer pessoas interessantes e lugares miseráveis que ignorava.

Alguns anos mais tarde, Gina ficou grande, mas não muito é verdade, e também iniciou no estudo de medicina na capital de nosso Estado. Ingressar nas faculdades de Medicina públicas de nosso país não é tarefa fácil; pois há um exame de seleção extremamente competitivo. Geralmente há entre 30 – 50 candidatos por cada vaga, e, para a felicidade de todos na tribo, Gina logrou ser aprovada entre os primeiros. Após obter sua graduação na Universidade Federal de Santa Catarina, ela em seguida mudou para a cidade grande. Foi para São Paulo fazer especialização em Infectologia. Seu treinamento durou três anos e assim que obteve o título de especialista voltou para o nosso Estado. Trabalhou entre nós por aproximadamente um ano, apesar do sucesso em termos profissionais, era muito mal remunerada. Ë bastante provável que esta tenha sido a maior motivação para retornar a São Paulo; pois, recebeu ofertas de trabalho atraentes do ponto de vista econômico. Eu lhe visitei uma única vez neste período. Foi em 1991, e devo confessar, foi uma experiência desagradável; pois as cenas vivenciadas no hospital onde trabalhava, me faziam lembrar de Biafra; aquela guerra separatista que ocorreu na Nigéria muitos anos atrás. Ela era infectologista no maior hospital para doenças infecciosas da América Latina, chamado Emílio Ribas, e preocupada com a falta momentânea de um médico neurologista na casa, teve a infeliz idéia de me convidar para avaliar alguns dos seus pacientes com sintomas neurológicos. Ver pacientes com SIDA em fase terminal foi algo muito desagradável para mim, que imaginava já ter visto tudo em termos de desgraça humana. Nada do que presenciei praticando neurologia, até mesmo em masmorras psiquiátricas degradantes, onde trabalhei alguns anos como consultor em neurologia, superava a miséria humana observada naquele hospital. Suspeito que até a finada Madre Tereza de Calcutá, ficaria sensiblizada com tanta desgraçeira. Este fato, pelo menos teve o dom de me permitir entender as razões de ela estar diferente do habitual. Gina sempre foi uma pessoa alegre e otimista, e naqueles dias estava cinzenta e depressiva. Retornei para o nosso Estado apreensivo com sua condição emocional.

Após vários meses tive notícias dela através da mama, estava namorando um indivíduo incógnito, e feliz. Mais algum tempo, viajou para a Europa, deve estar bem feliz, pensava. Um ano depois, convite para casamento na Aústria. Enciumado, conclui prematuramente: mama, acho que a nossa bela Gina está psicótica! Dois anos depois conheci o agente psicotizante, um cidadão austríaco! Tive poucos contatos com o indivíduo que roubou a Gina de nós; entretanto, apesar dos raros momentos de convívio e das dificuldades de comunicação, percebi que o eleito por ela, era um grande homem, apesar de baixinho como ela. A Aústria no passado, já deu uma imperatriz ao Brasil, Maria Leopoldina, nós retribuímos com a nossa princesa plebéia Maria Regina Trevisol Bittencourt; senhora Markt no momento, brasileira de nascimento e austríaca por opção.

Finalizando, gostaria de lhe desejar que continue exercendo medicina na terra adotada, com a mesmas qualidades que marcaram sua presença entre nós: infinita dedicação aos pacientes, com marcante capacidade profissional e otimismo contagiante. Congratulo-me com as pessoas que irão usufruir do seu trabalho e da sua alegria em viver intensamente cada momento.

 


Cordiais saudações tropicais,


Paulo Cesar Trevisol Bittencourt


Endereço para correspondência:

Prof. Paulo Cesar Trevisol Bittencourt, MD/MSc
Universidade Federal de Santa Catarina
Departamento de Clínica Médica
Disciplina de Neurologia
88040 – 970 Florianópolis/SC – Brasil

Email: pcb@neurologia.ufsc.br