Mais Jaulas para a Loucura

Ensaios e Crônicas – Mais Jaulas para a Loucura

 


Em uma peça publicitária publicada em jornais de Santa Catarina, o governo colocou como uma conquista social o aumento de vagas em uma colônia psiquiátrica vizinha a nossa capital. É o Ministério da Saúde, através do SUS, um dos seus principais mantenedores. É de lamentar que no limiar do terceiro milênio, autoridades ainda insistam na manutenção deste modelo anacrônico, estúpido, não-científico e anti-econômico, para o tratamento de indivíduos em dificuldades psíquicas. É anacrônico porque desde há algumas décadas, psiquiatras de boa formação ética e cultural, percebendo o equívoco, iniciaram o desmantelamento destas instituições nos países desenvolvidos. Evoluíram para formas de tratamento que resgatam a dignidade existencial daqueles que desenvolvem transtornos psiquiátricos, abolindo as jaulas.

É arcaico por não permitir o convívio social, que deveria ser franqueado a todos os indivíduos, independendo de como sejam rotuladas suas deficiências; sabe-se que a segregação imposta, contribui para a morte social precoce de todos os envolvidos.

É absolutamente não-científico; pois, inexistem trabalhos publicados demonstrando a eficácia da mordaça química (prática usual nesse tipo de instituição) nestes pacientes. Antes, pelo contrário, tendem a exibir efeitos colaterais grosseiros, e muitas vezes irreparáveis, do prolongado “tratamento” a eles ministrado compulsoriamente.

Por fim, é anti-econômico (exceto para uns poucos não pacientes), por representar uma cifra generosa do investimento estatal em saúde mental, que deveria ser melhor direcionada. Aliás, experiências bem-sucedidas, como alternativas ao confinamento em hospícios sem qualquer perspectiva de recuperação social, já existem em profusão, até mesmo em nosso país.

Abominável que um governo comprometido com o social (sic), persista patrocinando o embuste da psiquiatria ortodoxa que, desvinculada de preceitos científicos modernos, foi e continua sendo a responsável direta pelo aniquilamento de milhares de indivíduos, encarcerados em Colônias Psiquiátricas disseminadas pelo Brasil. Com o agravante de que muitas das suas vítimas exibiam intelectos brilhantes e pagaram um alto tributo, devido a incapacidade de profissionais medíocres em discernir loucura da sua alma gêmea, a genialidade.

Por tudo isto vale a pena enfatizar, que neste episódio, bem ao contrário da propaganda oficial, o governo está na contramão da história; pois, hospícios, cosmetizados ou não, continuarão sendo casas de horror, onde cidadãos com problemas mentais de tipo e graus variados, na maioria das vezes benignos, tendem a ser destruídos socialmente; inviabilizando sua inserção em alguma atividade econômica produtiva. Aposentadorias prematuras, onerando ainda mais o já combalido caixa da previdência social, são o resultado desta prática francamente psiquiátrica.

O senhor Secretário estadual, assim como membros do Ministério da Saúde, deveriam estar cientes das inconveniências médicas, sociais e econômicas de se investir dinheiro público em Colônias Psiquiátricas.

Resta a sociedade, despir-se do preconceito (filho bastardo da mama ignorância), que costuma exibir frente aqueles com transtornos de natureza psíquica e passar a interrogar a qualificação técnica, ética e humana daqueles que tão ardorosamente defendem o degradante modelito hospicial.

Os responsáveis pela utilização dos recursos públicos em saúde mental, deveriam dar mais atenção aos vários programas alternativos existentes no país (a reforma psiquiátrica empreendida na cidade de Santos seria um bom exemplo). Neles encontrariam inspiração para não jogar o dinheiro dos contribuintes no ralo do desperdício idiota. Contudo, se apesar das evidências científicas, nossas autoridades insistirem em incrementar Colônias Psiquiátricas, o Ministério Público deveria exigir que doravante, todo familiar de membro do governo (excluídos parentes desafetos), não importando o escalão, que por desventura desenvolva sintomas psíquicos, seja internado nestes abomináveis zoo-ilógicos humanos, pomposamente chamados de Hospitais-Colônias psiquiátricas; instituições insanas onde persistem práticas psiquiátricas primitivas, incompatíveis com direitos humanos elementares.

Como catarinense habituado a ver seu Estado dando bons exemplos à nação, fiquei envergonhado, pois sempre partilhei do ditado…quem cala consente; além disso, quem paga nunca deveria consentir com o uso pervertido do dinheiro público. Portanto, passo a inferir que as razões para tal desatino histórico, estejam em refrigerados gabinetes brasilienses, sensíveis a lobbies de “Simãos Bacamartes” catarinenses.

Ao Ministério da Saúde seria recomendável que, antes de pleitear por mais recursos, interrompesse esta política subdesenvolvida de financiar verdadeiros campos de concentração para enfermos psíquicos; muitos deles, exibindo níveis de insanidade bem inferiores àqueles emanados por alguns membros da administração desta nação.


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Epilepsia em uma instituição psiquiátrica

Epilepsia benigna transformada em doença mental severa

Junho de 1997


Dr. Paulo César Trevisol-Bittencourt
Presidente do Centro de Estudos do Hospital Universitário – UFSC
Professor de Neurologia – UFSC
Membro titular da Academia Brasileira de Neurologia
88040-970 – Trindade – Florianópolis – SC

pcb@neurologia.ufsc.br

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