Do Jeca Tatu ao Alzheimer

Ensaios e Crônicas – Do Jeca Tatu ao Alzheimer


Com tanta sacanagem governamental, impressiona-me o paradoxal progresso do nosso país. Vejam vocês a seguinte situação que ilustra bem isso. Durante minha infância eram tão comuns os casos de verminoses, que elas acabaram influenciando decisivamente o comportamento da sociedade brasileira; afetando inclusive o medicinês de outrora. Ao longo da graduação tive a oportunidade de confirmar isso; aliás, poderia ser afirmado, com excepcional chance de acerto, que nossos primeiros colegas estavam mais próximos de uma original e verdadeira Vermicina que Medicina propriamente dita. Tudo, ou quase tudo, era consequência de bichas mal educadas. Particularmente em nosso Estado, onde a magnitude do embichamento coletivo na capital e adjacências era de tal intensidade, que ela faria juz a alcunha hipotética de, em legítimo açorianês, ilha dos velmes. Elas eram tantas e tão variadas que neste ensaio seria inevitável a omissão de algumas delas. Por isso, focarei minha atenção naquelas duas que tiveram até recentemente uma participação médico-econômico-social mais exuberante: ascaridíase e ancilostomíase.

A vulgar lombriga, chamada aristocraticamente de Ascaris lumbricoides, reinava absoluta nas nossas barrigas verdes. Singularmente, com o passar do tempo, ela também acabou adquirindo hábitos açorianos e foi ficando cada vez mais curiosa. Algumas delas, não aguentando o tédio nas tripas, fundaram a Lombritur para organizar incursões por áreas mais nobres do organismo. Muito provavelmente, grande parte do rico folclore relacionado as verminoses tem na Lombritur a sua origem.

Além disso, como até onte-ontem a imensa maioria tinha ao menos uma de estimação, não seria de estranhar a devoção exibida pela população: todos ou melhor dizendo quase todos os problemas de saúde eram a ela atribuídos. Advindo daí sua espetacular contribuição para o desenvolvimento da nossa incipiente medicina científica. Por sinal, não constitui nenhum exagero afirmar que a especialidade médica pioneira entre nós foi a Lombrigologia, e diversos profissionais nativos destacaram-se nesta área. Desta cultura lombrigal restaram algumas óbvias sequelas. Até hoje por exemplo, ataques desencadeados por febre, são chamados de ataque de bicha (ou de velmes); crises genuínas de asma brônquica ainda são interpretadas por muitos como consequência de velmes (ou bicha) nos pulmão; ataques de enxaqueca suscitam ainda dúvidas tenebrosas…velmes que subiram pra cabeça (?) e assim por diante. Atônito, quando estudante, cheguei até presenciar esdrúxulos diagnósticos médicos de disritmia celebral lombriguenta. Acreditem, maioria dos nossos colegas viviam envoltos por um surreal mar de bichas e lascivos consideravam tudo tão normal, tão absurdamente trivial…, ofendendo por muitos anos a velha máxima de prevenir é melhor que remediar.

Afinal, quem acabou com seu reinado entre nós? Educação elementar, transmitida pelas milhares de professorinhas mal remuneradas. Envergonhado como médico, reconheço nossa ínfima e ridícula participação; suspeito até que se dependesse dos doutores lombrigologistas, esta pereba terceiro-mundista ainda estaria vicejante por estas bandas.

E como se passavam as coisas no restante do país? Nada diferente; não, melhor seria reverenciar a nossa afamada grandiosidade e dizer, tudo mais grande. Em 1889, saímos de um insultuoso império escravocrata, cujo feito maior foi o esquartejamento do vizinho Paraguai, para uma gigantesca República de Ban…digo, de Lombrigas. Em verdade, elas grassavam e desgraçavam nossos antepassados, e várias delas teimosamente persistem até atualmente. Todavia, desconfio que a mais notável delas, tenha sido uma de nome artístico, típico de dupla caipira moderna, o Ancilóstomo duodenale. Este lazarento contribuiu para a fama de bicho preguiça dos brasileiros nativos. Comportando-se como dráculas insaciáveis, cravavam seus dentes nas paredes intestinais e bebiam o sangue da debilitada caboclada nacional. Atacados por anemia grave, aos jecas tatus restava a lassidão e indolência compulsórias e a adoção como hino do charmoso canto das angulistas…tô flaco…tô flaco…tô flaco…. Além disso, foi responsável pela maciça asiaticação da nossa população; pois, em consequência da anemia exagerada as vítimas exibiam uma coloração de pele sui generis. Esta alteração foi chamada por nós de ancilostomíase e pela população humilde de amarelão, e com esse nome, a doença por muitas décadas imperou triunfante pelaqui.

Tragicômico reconhecer que foi um médico virtual, o Dr. Fontoura, a pessoa que detonou a dupla Ancilóstomo-duodenale, e nem precisou fazer uso da recomendada espingarda de cano duplo. Empregou como arma principal a boa escrita de um senhor inteligente, a quem encomendou um almanaque contendo informações de fácil interpretação e execução. Pronta a redação pelo advogado José Bento Monteiro Lobato, saiu o Dr. Fontoura distribuindo-o gratuitamente Brasil afora sob os auspícios do famoso elixir Biotônico e das eficientes pílulas de Ankilostomina. Alguns indivíduos beócios poderão exibir desapontamento com o que vou lhes dizer, mas que justiça seja finalmente feita: foi o singelo Almanaque do Dr. Fontoura com a figura simplória e altamente didática do Jeca Tatu, quem literalmente acabou com esta doença entre nós. Todo o mérito para o brilhante cidadão brasileiro Monteiro Lobato que através dos seus personagens, educou a população para a prevenção da terrível ancilostomíase; enfermidade responsável durante séculos por brutal redução da capacidade laborativa nacional. Para não cometer injustiça, reconheço a participação honrosa de uns poucos médicos reais; dentre estes, a figura do genial professor Samuel Pessoa merece ser destacada.

E agora na modernidade? Ora, finalmente estamos começando a morrer de doenças primeiro-mundistas; ufa, até que enfim iremos empacotar desenvolvidamente. Igualzinho aos primos ricos do norte; portanto, cantemos e celebremos todos… adios lombriguita linda…desculpem-me, adios maldito complexo de latrino cucarachento. Enfim chegou a hora da revanche; senis e pré-senis varonis, uni-vos e começai a vingança tropical. Ainda que tarde, Alzheimer, o germânico, acabou de chegar por estas bandas. Ele gentilmente irá lhes oferecer um ticket pela Transcendental Airlines (TA) e em tempo de dureza, imaginem … tutti tutti gratis. Entretanto, para fazerem jus ao mesmo, iniciem confundindo Austrália (aquele covil de nazis) com a Áustria (reino dos Cangurus); Escócia (terra daquele príncipe vampiro que deseja ser o OB de mocréia vulgar) com Inglaterra ( gud cana’s land); Bucareste com Budapeste (tanto faz é tudo cigano mesmo); Holanda com Índia (tudo vaca); Londres com Londrina; Suiça (das vikings taradas que inspiraram nosso Carlos Zéfiro) com Suécia (paraíso da ladroagem internacional); Caledônia com Polônia; Brasília com Buenos Aires; Rússia com Prússia; Tchecas com Xexecas e assim por diante.

Finalmente, para evitar abomináveis transtornos durante o vôo da TA recomenda-se aos familiares sua máxima atenção para não confundir Neurologia com o embuste da Saralhologia. Igualmente, a fraude moderna do hospício bizarro travestido de hospital normal deve ser prontamente identificada e profissionais francamente psiquiátricos deveriam ser diferenciados de educados psiquiatras. Have a nice flight.

Paul Melek

Junho/2000

P.S.: Infelizmente, diversas outras mazelas típicas do subdesenvolvimento ainda prosperam entre nós; para a sua erradicação a colaboração de doutores com índole similar a do Doutor Fontoura é urgentemente requerida. Pessoalmente, encomendei um para o combate da cisticercose, uma das endemias nacionais mais insultuosas do presente. Espero poder psicografar suas orientações diretamente do além.