O pequeno Letisto (ou Letisgô)

Ensaios e Crônicas – O pequeno Letisto (ou Letisgô)

Naquela tumultuada manhã de dezembro, a emergência da pediatria do Hospital Universitário da UFSC estava um verdadeiro Kosovo. André Troiano, um acadêmico exemplar, desconfiado do nome, gastou alguns segundos refletindo; mas, finalmente o chamou: Letisgo, por favor entre. Após alguns segundos de desconfiança paterna, esbanjando aparência de normalidade física e mental, entrou o pequeno Letisgo. Antes de qualquer abordagem, o preocupado pai esboçando contrariedade com o cenho franzido, chamou o acadêmico em um canto da sala e timidamente sussurou:…dotô, o senhor me descurpa, mas o nome do menino não é esse aí que o senhor falou não, na verdade o nome dele é Letisgô e aquele ali ao lado é o Magaivo, seu primo.

Os outros irmãos de Letisgô, Dejeniffer e Çaimão estavam também acompanhando a família, junto com uns parentes recém chegados do interior do Paraná. Possuído de uma curiosidade mórbida, o doutorando Troiano seguiu em frente: desculpe-me o senhor agora, mas como se chamam o senhor e sua esposa? Ah dotô, antigamente não haviam esses nomes bonitos, meu nome é Paudeley e a mãe deles é Maria do Parto. Ligeiramente desapontado, Troiano, atiçado por curiosidade mórbida, incorporou o espírito de algum perverso psiquiatra ortodoxo e fez sua última pergunta: os primos lá fora, como se chamam os primos? O tio orgulhosamente respondeu: dotô, aquele mais ali a esquerda é o Tovarixi e o outro na direita é o Piauhilino, no colo da mãe está o caçula Tomarroque e lá fora da emergência estão o Maicon, a Queiti, o Richardi e a Mérirelpe. Já que estamos falando deles o senhor não puderia dar uma olhadinha no Tomarroquezinho, é que êle tem a mania de fazer tudo o contrário. Eta menino levado.

Com o auxílio da CAGEB (CATÁLOGO GERAL DE EXCENTRICIDADES BRASILEIRAS), soube-se que o patriarca da família, Mr. Son of Gun, era um general norte-americano confederado emigrado para a Bahia no final do século passado. Na caatinga nordestina, revigorado por garrafas de uma mistura explosiva chamada capeta (cana, catuaba e guaraná), deixou millares de descendentes. Com o nome adotado de Onaireves Romão Ferreira e apesar de rebaixado a coronel, virou legenda em toda aquela vasta região.

Paul Melek
Abril de 1999