A Perrier da Colônia Psiquiátrica

Ensaios e Crônicas – A Perrier da Colônia Psiquiátrica

 

Muito estranha estava o sabor daquela água ultimamente. Curiosamente, diziam ser da bica e esta expressão era uma garantia da sua alta qualidade; uma espécie de Quälitatswasser. Todos a bebiam prazerosamente, inclusive os doutores da colônia. Misteriosamente, num belo dia apareceu um cabelo junto da perrier. Ninguém estranhou. No dia seguinte, alguém notou que na água havia um pequeno naco de algo semelhante a carne mumificada. A energúmena conclusão coletiva foi de que a caixa d’água precisava de uma limpeza. Entretanto, nada foi feito.

Na semana seguinte surgiu um dente na perrier. O dente, cariado, sugeria um teor ainda mais elevado de cálcio na riquíssima perrier do mato, tornando-a uma bebida ideal para a profilaxia de diversos problemas de saúde, inclusive e principalmente a temível osteoporose da modernidade.

Isto se prolongou até o dia em que, enfim, alguém perguntou: onde será que anda o Juquinha? Juca era um jovem cidadão confinado na casa de loucos por desafetos familiares. Profissionais bastardos concordaram com a gravidade da acusação familiar; seu crime: fumar baseado. Nunca aceitou a prisão metamorfoseada em tratamento especializado e prometera como vingança envenenar a perrier da colônia. Ninguém tinha levado a sério sua ameaça de levá-la a cabo. Juca estava apodrecendo na caixa d’água, desde seu desaparecimento, sessenta dias antes.

Paul Melek
02/98