Telediagnóstico

Ensaios e Crônicas – Telediagnóstico


Naquela noite assistia a baixaria da NATO (North American Troops in Overdose) no jornal da TV estatal francesa. Raramente sintonizo este canal, a média é baixa, talvez uma ou duas ao ano. O telefone, quem diria, finalmente resolve fazer uma boa ação interrompendo a sucessão de imagens melancólicas. Do outro lado, Marcelo Conrad, ex aluno do curso de medicina da UFSC. Guri brilhante e com futuro grandioso, inicia a conversa no tom habitual das pessoas bem educadas… professor, não sei se o senhor lembra de mim…, atorei-o neuroticamente: fala lá lageano, não costumo esquecer pessoas inteligentes e educadas, ainda mais quando procedem de Lages, pois são indivíduos tão raros…aonde andas? Ah professor, estou aqui em Lyon fazendo neurocirurgia e está tudo correndo muito bem. Marcelo, fico feliz em saber isso, mas por favor pare de me chamar de professor, tú bem sabes da minha aversão a esta palavra; ela me provoca angina escrotal. Apesar da admoestação ele insiste no seu excesso de boa educação…professor, tô lhe ligando para matar a saudade e também para lhe contar um fato muito estranho que aconteceu comigo. Na noite passada tive um sonho e nele o senhor aparecia dizendo repetitivamente para mim: Marcelo, acorda e vai para o hospital que tem uma pessoa com Guillain-Barrè na emergência te esperando. Sonho e sono acabaram quase que simultaneamente; um banho rápido e um café com seboclim despertaram-me de vez. Fui para o hospital, quando entrava, a enfermeira responsável pela emergência chamou-me num canto e gentilmente pediu-me para avaliar um jovem paciente que tinha chegado naquela madrugada e estava paralisado. Fiquei impressionado, como o senhor sabia o que ele tinha?

Marcelo, a física quântica tem uma explicação convincente para o fenômeno. Por favor, não é bem o seu caso; mas, poupem-me de interpretações bizarras induzidas por fanatismo religioso idiota.